sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

As Compras do Tempo da Vovó

Oi, vó!

É muito simples. Se você está a fim de comprar uma roupa nova, passa a mão no cartão de crédito, vai lindamente ao shopping center ou a qualquer loja que lhe apraza  e faz a festa – cuidado com a fatura! -. Entretanto nem sempre foi assim. Os tempos mudaram, ficaram bem mais rápidos e com eles veio uma praticidade nunca antes experimentada pelo homem. Com apenas um golpe do cartão na maquininha, ou ainda, com um mero clique, pode-se comprar dúzias e mais dúzias de roupas. Mas e no passado? Na metade do século 20, como funcionava? Conversei com a dona Adelaide Navarro, também conhecida como minha avó, para tentar desvendar os hábitos de compra e a relação das pessoas com as roupas no passado.

A vó Adelaide nasceu no bairro do Ipiranga, e ainda bem jovem, em 1961 foi morar em São Bernardo do Campo, onde vive até hoje. Ela conta que as cidades eram muito mais pacatas naquela época “Não tinha praticamente loja alguma e a gente ia para Santo André [município vizinho] para fazer compras, fazer despesa. E o comércio fechava ao meio dia aos sábados”.


Quem diria que nos anos 1940 a Rua 25 de Março seria tão calminha?

Justamente por conta da disponibilidade limitada de opções de lugares para se comprar e do fator financeiro - a família da vó Adelaide não era das mais abonadas - é que as roupas eram compradas em intervalos maiores. Além disso, a moda era muito mais mansa, mudando de desígnios com velocidade muito menor que hoje. “A moda mudava uma vez por ano. Vinha a moda nova do sapato e a gente comprava e tinha que durar por um ano. A gente reservava aquele [sapato novo] para passear e o velho a gente usava para ir à escola”.

A partir disso, eram criadas inúmeras estratégias para fazer com que os produtos de moda durassem mais. “Onde a gente morava era tudo de barro e quando a gente ia passear, colocava o sapato velho e levava o novo na mão. Quando a gente descia o morro, guardava o sapato velho no matinho, calçava o limpo, atravessava a rua e pegava o ônibus para ir para o baile”.

O baile, inclusive, era o lugar em que as moças da cidade se uniam para desfilar suas modas novas. Naturalmente, havia uma disputa tácita de qual era o vestido mais bonito. “O baile era a minha vida. Até hoje não gosto muito de escutar música porque me emociono muito. Justamente, tinha oportunidade de ter mais vestidos quem ia ao baile”. No começo dos anos 1960, a silhueta do New Look de Christian Dior ainda estava em voga. Vestidos de cintura apertada e saia farta, sustentada por saiotes engomados, que esteavam rodopios mil nos salões de dança.

O famoso modelo "godê quarda chuva", febre nos bailes de outrora

Por demandarem muito tecido, eram vestidos normalmente caros. Vó Adelaide e suas irmãs saíam na dianteira por saberem costurar. Compravam o tecido, modelavam e costuravam seus próprios modelos com saia godê guarda-chuva, quando não estreados no baile, em ocasiões especiais, como Natal e Páscoa. As referências prediletas vinham da rua. Ela conta que observava a roupa das pessoas nas ruas e criava suas próprias com base nessas – um beijo pra quem acha que streetstyle é coisa moderna.

Mas então, vó, a roupa hoje ficou mais barata? Ficou mais fácil? Ficou melhor? “Nem sei. Acho que para mandar fazer, hoje fica mais caro, então por isso que a turma compra essas roupas feitas que... são uma bagunça. Umas roupas esquisitas. A moda de agora é muito esquisita. Agora se joga muita coisa fora. A gente vê e já quer comprar e tem gente que não dá valor porque a compra é mais fácil. A gente tinha que dar valor porque no meu tempo quem era da mesma classe social que eu, tinha que dar mais valor porque tinha que cuidar para ter as coisas. Não era como agora que se joga tudo fora. Antes era mais difícil. Também não tinha tanta loja.


Os depoimentos da vó Adelaide mostram que, ao mesmo tempo, muita coisa mudou e muita coisa permanece como antes. Se a quantidade de lojas e gama de produtos ofertados aumentaram substancialmente, continua aquela impressão de que se você quer se vestir de maneira única, vai ter que colocar a mão na massa ou ir à caça de uma boa costureira para dar vida a suas criações. Rico ou pobre, se eu fosse você, dava ouvidos ao conselho da vovó e passava a dar mais valor para o que está dentro do seu guarda-roupas!