sábado, 17 de novembro de 2012

A função do figurino - O caso Balé Triádico

Figurino de Young VictoriaYoung Victoria, filme premiado com o Oscar de melhor figurino em 2010

Um rei traja-se de modo diferente de um plebeu; uma dona de casa não se veste como uma prostituta; Ulisses não usava os mesmos trajes de Rei Lear, Medeia não se vestia como Lady Macbeth e assim por diante. É através da roupa que compomos a primeira imagem dos personagens do teatro e da vida real. O figurino é parte compositiva do personagem e, assim como na vida real, ajuda a construir sua identidade e situá-lo historicamente. Um homem nu em meio ao nada é um homem de caráter impessoal e atemporal. Está perdido no vazio.

Agora, pense em um espetáculo cujas formas humanas dos personagens estão ocultas por armações sofisticadas e malhas com enchimento. Uma peça de teatro composta por um elenco que mais parece uma coleção de bonecos esquisitos e sem gênero. Você acabou de pensar no Balé Triádico, um espetáculo de dança desenvolvido pelo artista e coreógrafo alemão Oskar Schlemmer. Sua estréia se deu em 1922, em Stuttgart, Alemanha.

Wunderbar!

Oskar era membro da Bauhaus, escola de artes e design do início do século XX, e isso nos diz muito sobre seu trabalho no Balé Triádico. A Bauhaus foi fundada em 1919 pelo arquiteto alemão Walter Gropious e priorizava a racionalidade funcional. Os ornamentos clássicos eram desprezados em favor de um design composto por linhas limpas e ângulos retos.

O Balé Triádico subverte a lógica do figurino enquanto sistema ergonomicamente projetado para o livre movimento do ator. A roupa desse espetáculo, através de sua construção, inibe o reconhecimento do sexo, do status, da idade e da localização do personagem. Além disso, muitas das peças foram compostas para que os dançarinos tivessem seus movimentos tolhidos. A bailarina não pode abaixar seus braços porque em sua cintura estão afixados dezenas de aros. O dançarino – ou seria dançarina? - tem sua cabeça coberta por um globo metálico. Outras peças, pelo contrário, contribuem para que a roupa sirva como extensão do corpo do artista, como é o caso da dança das varetas, ato em que o bailarino tem longas hastes afixadas em seus membros.

Dança das Varetas

É um figurino revolucionário porque subverte suas funções originais. Tudo que se espera da roupa de um dançarino é que permita seus movimentos. No entanto, o movimento almejado não é o humano. Existe o desejo do movimento mecânico. Compassos sincopados ditam o ritmo de uma dança nervosa, até um pouco tensa. O modernismo latente via o corpo como máquina.

O Centro Universitário Senac reproduziu alguns dos trajes originais do balé em 2010 e fez uma reedição da apresentação em três atos. É possível assistir ao espetáculo pelo Youtube.

Das Triadische Ballett

De uma forma bastante particular as roupas desse balé alteram o gestual humano, tanto no momento da apresentação, quanto no momento da preparação do espetáculo, afinal, não se veste uma grande cabeça de lata ou uma roupa de varetas com a mesma facilidade com que se veste um par de jeans. Através das relações de forma e função, o Balé Triádico cria novas dimensões para o corpo humano e subverte as noções de temporalidade e identidade do personagem teatral.

Reprodução dos figurinos de 1970:

Este texto foi originalmente escrito para a U+Mag, revista do gracinha do Romeu Silveira, editada por Luigi Torre e André Rodrigues.

2 comentários:

  1. Olááá,

    estamos com novidades no site...

    passa lá pra dar uma olhadinha, http://www.nofiomoldes.com.br

    -Pra quem sabe fazer MODA-

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