sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Os pés no chão das modas



No começo de sua existência, os desfiles de moda tinham como objetivo expor um conjunto de toaletes – ou trajes – desenhados e costurados pelo estilista a suas potenciais clientes. As compradoras eram reunidas em um salão e as modelos então desfilavam exibindo as peças. Findada essa etapa, as espectadoras faziam suas encomendas. Vendas eram efetuadas, o caixa girava, o costureiro ficava feliz e, mais importante, não passava fome.

Desfile da Casa Canadá

O tempo passou, surgiram os anticoncepcionais, os mullets e o Menudo e as coisas mudaram de cara. Em algum lugar do século XX, o desfile de moda deixou de ser um evento visando à venda e se tornou um espetáculo pirotécnico. Se antes as modelos desfilavam portando plaquetas com números que identificavam os trajes e tornavam as vendas mais práticas, hoje as modelos portam olhadas fatais e fazem caras e bocas. Tudo para impressionar o público.

Thierry Mugler, 1999

Isso tem motivo, creio eu. O desfile parece ter se tornado um mecanismo de posicionamento de marca usado pelas grifes não mais para vender roupas diretamente, mas para mostrar ao público a que veio. Aquelas peças que fazem a sua mãe perguntar “E alguém usa isso na rua?!” têm o objetivo de manifestar um conceito, um clima etc e tal.

Já não é de hoje, me questiono quanto à eficiência dessa manobra. Será que o desfile de moda é garantia de retorno para o estilista? Quanto um desfile, que chega a custar mais que um automóvel – e não me refiro a modelos populares – ,rende em dinheiro para uma marca? Se os compradores presentes na sala de desfiles vão correndo para o showroom da marca no dia seguinte atrás daquela jaquetinha que todo mundo vai querer comprar, não seria mais inteligente promover um evento dentro do próprio salão de vendas reservado a compradores – incluo aqui grandes magazines e afins -, imprensa especializada, convidados e estudantes? Por que não promover um evento que promova ainda mais informação de moda a quem se interessa pelo assunto?

Showroom da Old Navy

Para alguns nomes como Hussein Chalayan e Jum Nakao, o desfile se tornou plataforma de expressão. Fazem parte de uma categoria de criadores cujos trajes transcendem a moda em seu sentido mais primordial – criação e cópia, necessidade de pertencimento etc... – e fazem da passarela o livro por meio de que passam sua mensagem. No Rio de Janeiro, uma marca que tem se destacado nesse sentido, mas com premissas muito menos artísticas e mais mercadológicas, é a Reserva. Rony Meisler e equipe fazem do desfile um canal de comunicação direto com o admirador da etiqueta e transmitem a mensagem da marca ao mesmo tempo em que exibem as roupas que serão vendidas.

Chalayan em um de seus desfiles-manifesto. "O estilista está a serviço da moda", afirmou.

O fato é: hoje, se o espetáculo apresentado não for muito bom, não vale a pena aturar o atraso de uma hora do estilista e as pretensões desfiladas – muitas vezes mal executadas.

Posicionamento de marca é importantíssimo, mas pode ser feito de N jeitos. A venda é crucial, afinal de contas, o que move o mundo não é glamour, mas dinheiro. O que me incomoda mais nessa história toda é que parece que o desfile de moda, e a semana de moda por conseguinte, perderam seu propósito. Deixaram de ser um ambiente de negócios, para se tornar um ambiente de validação. Sendo o mercado de moda da nossa Pindorama Fashion uma panelinha de amigos e coquetes, é ultranecessário saber who is in and who is out. O que me leva a engrossar o coro levantado por Colin MacDowell ao questionar a relevância da crítica de moda. Quem tem mais influência sobre o público consumidor, a editora de moda ou a personagem da novela?



Estilistas quatrocentões têm “pulado a temporada”, a China está engolindo nosso mercado interno pelas beiradas... Moda, cai na real.

5 comentários:

  1. Cada dia mais consciente do que escreve, parabéns!

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  2. Apareci por conta do retweet da Cris. Interessante raciocínio!

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  3. É um questionamento consistente e lúcido. E corajoso! A moda tomou um caminho equivocado e parece que não sabe mais como voltar pra casa. Você sempre maduro! Orgulho.
    Cris Guerra.

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  4. É, já tá na hora de voltar ao começo para entender onde nos perdemos...

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  5. Parabéns pelo blog, ótimo raciocínio e opiniões ousadas! Dá até gosto encontrar um blog como esse diante de tanta porcaria que tem por aí. Beijos!

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