segunda-feira, 18 de junho de 2012

SPFW verão 2013 - Separando os homens das crianças


Fotos: Reprodução

Eis que terminou mais uma temporada. As modelos foram, posaram para as fotos, voltaram para o camarim; os editores elogiaram, criticaram, ficaram em cima do muro; os estagiários sofreram; os tilangos roubaram os poucos brindes da fila A; as blogueiras secaram o estoque de espumante dos lounges; as bloguitas trabalharam melhor que muito jornalista e assim nós fomos vivendo de amor durante a São Paulo Fashion Week que mostrou as referências do verão de 2013.

Assisti a poucos desfiles, 7, 8, no máximo, por causa dos meus horários – fiz jornada dupla. Saía do escritório e ia voando até a Bienal –, mas mesmo assim consegui desenvolver minhas percepções sobre a temporada e aqui vão meus pitacos:


Calendários e Balancetes – Em virtude do adiantamento da temporada de Inverno 2013, prevista para outubro próximo, as coleções apresentadas nesta SPFW foram bem mais modestas. Até Lino Villaventura, muito afeito a exageros e teatralidades, segurou a mão. O sentimento geral é que os estilistas, que sempre nos fazem rebolar para entrar em suas roupas apertadas, tiveram de quebrar a cabeça para fazer com que suas criações coubessem no orçamento. O que, de fato, é muito bom, pois de certa forma essa limitação separou os homens dos meninos, principalmente em se tratando de etiquetas que não são respaldadas por grandes conglomerados. Destacou-se quem soube desenvolver seu trabalho com menos recursos, mas sem se distanciar da identidade de sua marca.


João Pimenta – Esse foi um dos desfiles que me deu aperto no coração de ter perdido. O trabalho de João está num crescente e a declaração de que o estilista esteja se adequando ao mercado não deve ser recriminada, mas sim festejada. Afinal de contas, o que move o mundo é o dinheiro e os estilistas precisam dele para viver. A cada temporada, ele revela maior apuro no que tange a tecidos e acabamento. Gosto muito!


Engasgos – Quem convive comigo sabe que eu soluço e engasgo muito. É que tenho refluxo gástrico. As modas me fazem soluçar muito menos que meu sistema digestivo, mas quando o fazem, é forte! Ronaldo Fraga e Samuel Cirnansck foram os responsáveis pelos nós na garganta da minha temporada.

O primeiro emocionou com uma coleção mais comercial muito bem amarrada e interessante. As produções de Ronaldo traduzem perfeitamente a índole mineira: convidativa, amistosa, tépida. O texto que encerrou o desfile me deixou meio catatônico. Palavras que descreviam os encantos do Pará, estado que inspirou a coleção, mas que mesmo que tão regionais, soavam universais, pois falavam de um sentimento humano, um sentimento sem nome ainda. Saudade? Talvez... só sei que me despertou e chamou a atenção. E não é isso que a moda tem que fazer?


Samuel não só emocionou como sambou na cara de muito jornalista! Antes tido como um dos motivos de riso do line-up, Cirnansck provou que seu apuro e que a qualidade técnica de seu trabalho são capazes de superar os preconceitos de muita gente que prefere julgar do alto de suas torres de mentirinha a colocar a mão na massa e conhecer o trabalho do estilista. Aliás, conversando com Samuel no camarim, a revelação de que foi necessária uma reforma em seu ateliê para abarcar a ampliação de seus negócios. Há três anos, fiz entrevista de emprego no lugar e digo para vocês, já era bem grande! Uma felicidade saber que o bom trabalho de Samuel está sendo prestigiado e recompensado.


Papelão – Não me refiro às divertidas franjinhas nos vestidos de alguns modelos de Ronaldo Fraga, feitas do material, mas ao segmento publicado pelo Site Chic “Chic or Shame”. Já é notório que o veículo não é lá muito afeito às blogagens e afins, o que é bastante justificável vide a quantidade de porcarias e desserviços publicados em blogs, mas expor as blogueiras a esse papel ridículo contraria em completo a linha editorial do veículo, um dos mais respeitados do meio, e o próprio discurso de sua criadora, Glória Kalil, defensora de que não existe “certo” e “errado” na moda. Não sei de quem partiu a decisão de integrar a seção à cobertura do site, nem quero saber, mas acredito piamente que foi uma decisão descabida e fora de contexto. Vamos deixar isso para a Blogueira Shame.


Literatura – Gostaria muito de saber quando os estilistas vão se dar conta de que release não é hai kai. Explicando: por mais que os olhos do jornalista estejam treinados, às vezes é difícil decifrar qual o tecido usado naquele blazer ou se aquela aplicação no vestido era uma pedraria ou um chatón. O release, texto de divulgação produzido pela assessoria de imprensa da marca ou pelo próprio estilista, deve conter todas as informações técnicas e conceituais da coleção, no entanto, há quem prefira se perder em versinhos descabidos e em premissas poéticas pra a de chatas. Os jornalistas agradecem. Só que não.



Cala a boca, Augusto – Faço as vezes da Bárbara da música do Chico e calo a minha boca. Eu que reclamava que há temporadas a Osklen não apresentava nada de interessante, me surpreendi com sua última coleção. Ouvi que Oskar Metsavaht pretendia revisitar referências dos verões passados da marca e já torci o nariz esperando mais uma coleção autorreferencial. Só que caí do cavalo! A etiqueta apresentou modelagens muito interessantes e um trabalho de materiais e texturas muito bacana! Desejei bastante a jaqueta em nylon iridescente.


Cala a boca, Augusto (Parte II) – “Augusto, você cobre Colcci?” perguntava Cecilia Lima, minha editora e mainha das modas. Eu respondia que sim, mas contrariado. Os desfiles eram tumultuados por causa da enorme quantidade de famosos na sala e na passarela e a coleção, bem... não era lá essas coisas... Pois que nesta temporada tive uma grata surpresa! Primeiro com a não-participação de Ashton Kutcher e depois com a qualidade da coleção. Bem amarrada, bem executada e muito bonita! Dez pontos pra Grifinória e pra Colcci!


Edward Mãos de Tesoura – O personagem de Tim Burton invadiu as modas de vez. Não como referência visual e sim como cortador em confecção. Sua primeira ação foi decepar as partes dianteiras das saias das fashionistas. Uma profusão de saias mullet desfilou pelos corredores e passarelas da SPFW. Não aprecio muito, mas não recrimino. O que é de gosto...


Queria Forum, só tinha Prada – A Forum é uma das marcas mais tradicionais do país. Criada por Tufi Duek, por meio de sua moda jeans muito bem feita, prestigiava o corpo da mulher brasileira. A marca se ausentou da semana de moda por um tempo e anunciou sua volta para a semana passada. Fui ao desfile na expectativa de assistir a um desfile que reafirmasse o statement da marca, mas fui surpreendido por uma dublagem das estampas de fruta da Dolce & Gabbana e dos conjuntinhos da Prada. Verdade seja dita, a coleção era extremamente coesa e bem produzida, mas quando as luzes da sala de desfile se acenderam ficou o gosto de que era a coleção certa para a marca errada...


No mais, uma São Paulo Fashion Week que pode não ter contado com tantos recursos quanto sua edição anterior, mas que foi certamente mais interessante, pelo menos do meu ponto de vista. Fica a prova de que a criatividade é amiga da necessidade e da falta de dim dim.



Tchau, SPFW e até outubro!

2 comentários:

  1. Gostei muito do texto. Partilho de algumas opiniões e de outras não, o que muito me agrada, já que a escrita abre espaço pra discussão.

    Um ponto que me deixou muito instigado e afim de debater é sobre a Forum.
    A marca está no imaginário de moda de muitos brasileiros, e mesmo não participando a algum tempo do SPFW tem seu amplo espaço no mercado.

    Discordo quando você sugere que a marca fez uma interpretação de coleções da Prada ou da Dolce & Gabanna. Mas essa discussão é ultrapassada nos dias de hoje, o exercício do novo/velho, cópia/original caducou ao passo que vivemos numa cultura com ampla difusão de informações e com uma porosidade tão grande quanto à reapropriações.

    A Forum tem uma identidade brasileira muito forte, o que consolidou a marca no passado.
    As estampas do Fillipe Jardim só vem reafirmar isso, reatulizando e reciclando obviamente, vide Edifício Bretagne e Inhotim.

    Achei a atitude da marca acertada, preterindo olhar pra frente ao invés de ser saudosista.
    A Forum tem uma bagagem muito forte, não tem como se livrar (e nem deve, ora bolas)dela, mas com certeza deve trazer novidades, que o mercado exige e a história da moda e das referências visuais agradecem.
    Eu definitivamente vi a vontade de uma marca se reposicionar. Não é aquela Forum do Tufi Duek dos anos 90 ou 2000, é a Forum da Marta e sua equipe de hoje, 2012, que se vale do acervo da marca, mas dá uma visão nova pra ela.
    Moving forward!


    Gostei do que escreveu sobre o João e a veia comercial. E mais ainda sobre o Ronaldo imbuído da nossa cultura e do nosso jeitinho mineiro de ser.

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  2. Cara a coleção do João pimenta realmente tava muito boa. Concordo!

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