sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A Gente Estranha do Clínicas



Existem alguns requisitos para ser fashionista e um deles é ser pobre. Modéstia à parte, cumpro esse com maestria. Financeiramente mal fornido como sou, depois que saí do colegial, tornei-me frequentador assíduo dessa tão disputada casa noturna chamada Transporte Público.

Pois bem. Moro em Santo André, no ABC Paulista e trabalho na Bites, assessoria de mídias sociais situada na Vila Madalena. Isso significa que percorro a linha verde do metrô quase que em sua totalidade - só fica me faltando a estação Vila Prudente, mas essa eu dispenso...

Eike Gramuuuuuuuu!!!!!!!!!!

Não precisa muito tempo de observação para perceber que cada estação de metrô tem o seu perfil de desembarque. Na Brigadeiro, desce uma gente engravatada e macambúzia cujo destino é a tela de um computador e um escritório enfadonho; no metrô Consolação, desce toda sorte de gente muderninha de camisa xadrez, tatuagem, alargador e ar blasé; no terminal Vila Madalena, desce uma gente meio natureba, meio hippie chic, algumas senhoras de calças de moletom mais largas e curtas do que deveriam ser e alguns rapazes de dreads. Ah sim! Eu desço aí também, mas além das calças curtas, não tenho muito em comum com os habitués da Vila. No entanto, a estação que me intriga é o metrô Clínicas. Desce no metrô Clínicas uma gente... estranha!

"Ma che cazzo é esse povo?!"

Além das enfermeiras, que trabalham no Hospital das Clínicas, e do pessoal de muletas que vai ver as enfermeiras do Hospital das Clínicas, há muita gente que desce nessa parada a fim de pegar um dos vários ônibus que sobem a avenida Teodoro Sampaio e muitos músicos que trabalham nas lojas da avenida, conhecida por ser um ponto de venda forte de instrumentos musicais e... mobília (Nexo, cadê?!). Não vou mentir. é um pessoal com muuuuito menos recursos financeiros que a gente do Consolação, do Brigadeiro e do metrô Vila.

Confesso que por muito tempo olhei torto para a gente do Clínicas. O pessoal usa umas roupas esquisitas, às vezes com um desmazelo próprio de quem já tomou outras duas conduções antes de chegar onde está. Mas, com o passar dos meses, comecei a ver a turma que descia uma estação antes do metrô Sumaré com mais carinho e frieza - se é que isso é possível.

Restart versão pagode

Não sei se foi Balzac ou Wilde que disse que caminhar é um dos exercícios filosóficos mais prolíficos que um homem pode executar. Pois eu recomendaria uma volta no metrô ao autor desse pensamento! Com o tempo, fui vendo que o vestido de chiffon baratinho feito em casa usado com jaqueta de couro por aquela moça resultava numa combinação muito mais interessante e autêntica que a calça skinny e camisa xadrez da Gente do Consolação. Percebi que a camiseta surrada que é usada pela diarista do Clínicas era cafona, mas a t-shirt estonada vestida pelo hipster do metrô Vila Madalena era cool, hype, must-have etc. Perguntei por quê.

HipsterzzZZZzzZZZZzzZZZzzz

Parece existir um desprendimento e um descompromisso tão grande na Gente do Clínicas que chega a ser emocionante. Ok... a Gente do Clínicas tem como ícone de estilo máximo a protagonista da novela, mas não parece existir esse afã tão grande em seguir as tendências e agir com uma non chalance muito da nojenta ("Não, eu não sigo tendências", diz o fashionista). Existe compromisso com o visual? É claro que existe. Quem se veste, por excelência, está preocupado com a mensagem a ser passada por sua roupa, mesmo que a escolha seja equivocada ou que a mensagem não seja lá muito coerente. 

O lance é que a Gente do Clínicas, por não estar em contato tão direto com o "mundinho das modas" se permite tentar coisas novas, experimentar combinações malucas e muito interessantes, enquanto a gente fica aqui, chupando dedo e macaqueando o pessoal da gringa...

Tiro meu chapéu pra Gente Estranha do Clínicas!

5 comentários:

  1. Gostei do blog.
    Gostei das observações. Nada mais legal para quem gosta de moda: Ver gente de verdade.
    Gente estranha é interessante.
    bjks.
    Mel

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  2. Muito bom!!
    Ando meio cansada do povo que segue tendência fingindo não seguir tendência. Vou dar uma volta pelo Clínicas qualquer dia! ;)

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  3. Cheguei por aqui através do HVA.
    Muito bons seus textos, parabéns! Ironia inteligente. E ainda fala de moda, tema que eu gosto.
    Particularmente, concordo com sua conclusão..também ando cansanda de macaquinhos gringos por aí...Ibama neles.
    bjo

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  4. Estou adorando ler o blog ! Conheci hoje e achei inteligente. Também sou de Santo André...
    bjo

    Julia Andrews

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