quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Maxime, Rony e moda pra pensar…

Ora, ora! O mundo dá voltas e as coisas acontecem numa velocidade que a gente nem imagina. Pois que neste ano, completamente de supetão, duas das minhas marcas mais queridas anunciam que vão pular a temporada. As descoladas British Colony de Maxime Perelmuter e Reserva de Rony Meisler tiram um pequeno recesso.

British-ColonyOs navais bacanudos da British Colony

Posso não ter visto muitos de seus desfiles, mas são marcas que me impressionam por seu trabalho. Maxime é um dos estilistas cujas peças mais me interessam. Sua última coleção de inverno apresentou uma leitura muito interessante das referências navais, fugindo do clichê das listrinhas azul marinho e das cordas e âncoras.

SAM_6252Óculos malucos Lunetterie by Maxime Perelmuter

Rony Meisler me encanta tanto quanto Maxime, mas por motivos um tanto diferentes. Um trecho da mensagem enviada à imprensa notificando seu afastamento temporário das semanas de moda explica o motivo da minha admiração: “[usar] a roupa como mídia para uma mensagem – ou barulho, como gostamos de chamar – maior”. Ora, não se iludam pensando que a moda é um sistema sintático – “meias vermelhas significam isso, camisas brancas significam aquilo…” – A moda, ou o espírito da moda, como preferirem, é muito subjetiva. Não que algumas peças específicas não tenham sua carga semiótica específica, mas não dá para atribuir significados diretos para toda peça de roupa. E de umas temporadas para cá, essa era justamente a magia da Reserva. Os desfiles, pelo menos os de duas, três temporadas para cá, suscitavam discussão, davam coceira no cérebro e vontade de pensar – e de escrever!

Reserva Verão 2012Reserva Verão 2012_
Reserva Inverno 2012 (Fotos do @charlesnaseh do Site Chic)

Tomo como exemplo a última coleção de Rony, em que era feita uma crítica aos modelos ditatoriais e a velhos ídolos que acabaram se tornando caricaturas ridículas. A crítica era mais direcionada a Cuba e a seu sistema socialista falido – moral e financeiramente. Ao fundo da passarela, a emblemática figura de che Guevara portando um brilhante nariz de palhaço e ao centro, um grupo de atores, vestidos e maquiados como palhaços simulava uma linha de produção de charutos. A coleção? desconstruia o cargo em forma de bolsos gigantes e malhas molengas. A estamparia fazia um mash-up de McDonalds com socialismo. Tudo regado fartamente com muita ironia. Em sintonia afinada com o espírito da Geração Y. Houve quem achasse tudo aquilo muito over. Engraçado… não me lembro de ouvir ninguém criticar as macaquices sem sentido de Lady Gaga desfilando para a Mugler… just sayin’…

Reserva

Em seu comunicado oficial, Rony diz que guarda o Inverno 2012 para uma sátira sobre a falta de originalidade contemporânea e diz que nesta temporada a marca testará novas formas de comunicação. Aí fico pensando se o estilista não tem para si que o modelo de desfile de moda já não está ultrapassado e que seu propóstito foi subvertido de tal maneira que tenha perdido seu significado.

Sei lá… Rony me faz pensar…

E Maxime me faz suspirar…

Boa sorte aos dois nesta temporada!

Um comentário:

  1. Muito obrigado Augusto, inacreditável, corajoso e - neste mercado em que vivemos - improvável, sensibilidade!!

    O Maxime é o maior estilista da minha geração. Eu não sou estilista e a Reserva não é uma empresa de moda. Sou diretor criativo de uma empresa de idéias que pretende mudar o mundo um pouquinho.

    No que diz respeito a temática do Inverno, posso explicar, não acredito em algo que se determina como padrão mercadológico. Isso é seta apontada para uma direção e concorrentes correndo para se aproximarem dela. Isso engessa. Acredito em setas colocadas para lados diferentes, difusos, paralelos ou perpediculares...Qd se encontram é por acaso, não por dinheiro... Em qq mercado. Isso destaca.

    Acho que na moda a seta está apontada para o mesmo lado a muito tempo. É Todo mundo gastando tempo pensando em como surfar a melhor onda da última semana ao invés de pensar no que acreditam para a vida, para pensar naquilo que amam fazer..

    Quando comunicamos nosso pulo nesta temporada muito começou a se especular. Que fique claro, a minha sincera opinião, e acho que ao longo do tempo tenho demonstrado que não tenho papas na lingua :) , o SPFW é importantíssimo para o mercado e o Paulo Borges, além de amigo, é um gênio. Foi o cara que regulamentou a moda neste pais.

    Sim há crise, crise de identidade hehehe, não no spfw, muito pelo contrário, mas nas marcas. São todas iguais loucas para se aproximar do padrão de mercado da vez, daquele que vende mais..

    Vamos pular esta edição do evento por isso, será que seremos mais ou menos "cool" se não desfilarmos?! Enfim, novamente a Reserva apontará a seta para outro lado, afinal de contas, como muito bem percebido por você, este sempre foi o nosso tesão!!

    Um beijo, e, novamente, parabéns, fiquei verdadeiramente lisonjeado e impressionado com o seu texto e coragem.

    Rony

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