sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

SPFW e o Fastio das Modas

Cavalera por Folha de São Paulo - uma verdadeira GANÂNCIA!!!

Todo final de temporada ele faz tudo sempre igual. É só fechar a sala do último desfile do São Paulo Fashion Week que eu não perco tempo e já apronto minha listinha de Ganâncias da Estação. Neste semestre não foi diferente, meu apontamento de peças e desfiles prediletos foi realizado... mas a lista nunca foi tão modesta...

Não sei se fui eu quem ficou muito ranzinza ou se... bem...

#Humores #Alegrias #Sorrisos

Comecemos com os elogios: 

Salva de palmas para Mario Queiroz e João Pimenta. Os criadores exploraram a alma da roupa, o tecido! Curioso e muito louvável que estilistas do Brasil, um país cujo parque industrial têxtil é uma verdadeira sucata, se prestem a cuidados especiais com o tecido! Mario revisitou seu acervo têxtil e criou novas combinações a partir de materiais antigos. Mais importante, sem aquele discursinho eco-chato que ninguém suporta mais. Senhor Queiroz tem mostrado sua faceta mais comercial, dosando com muito jeito suas influências artísticas e acadêmicas.

Mario Queiroz por Moda Para Homens

João Pimenta foi mais categórico e revelou nos bastidores de seu desfile: "O Brasil não faz tecido para homem". Pensem vocês que se a confecção feminina já sofre com escassez de materiais têxteis nacionais, a indústria do masculino tem que se contentar com umas gabardines muito das safadas. Para tourear o problema, o estilista criou seus próprios tecidos a partir de refugos têxteis e retecelagem. Mais uma vez, um criador ecologicamente correto e NADA chato.

João Pimenta por ModismoNet

João viajou até o século XIX para afanar um detalhe aqui e outro ali das modelagens da época. O resultado das pesquisas aparece no corte dos casacos, mais curtos; na cauda de algumas saias, mais longa. as calças são bonitas, as saias impressionam, mas a peça vedete foi o blazer. Revisitado e remixado, ganha mangas de tricô, lapelas de couro e outros detalhes espertos. O estilista só deve tomar mais cuidado com o acabamento. Principalmente com as barras dos casacos e suas lapelas.

João Pimenta por UOL

Agora os descontentamentos:

Faz pouco tempo que cubro a temporada das modas. Comecei minha seara em 2010, aos 18 anos. Desde lá foram 5 São Paulo Fashion Weeks se minha matemática falha não me enganar... Acho que nunca vi um SPFW tão sem brilho, sem viço, triste...

Não me refiro à exposição do hall de entrada, com ares soturnos e meio pós-apocalípticos. Refiro-me ao clima interno e às próprias coleções apresentadas. O motor da moda é a novidade - e existe uma atroz diferença entre "novo" e "novidade" - e partindo dessa premissa, fica a célebre pergunta: quoi de neuf?! Sou grande admirador da moda comercial, mas a dita "Semana de moda mais importante da América Latina" não pode se dar ao luxo de ficar na zona de conforto. O Brasil é a bola da vez e, como já disse em "O Eterno Retorno das Modas", estamos em uma posição de influência jamais experimentada pelo nosso país. Estamos prestes a deixar de ser seguidores de tendências para tomarmos a banca das modas e começarmos a dar as cartas do jogo. 

"Flowers for spring..."


O burburinho entre os jornalistas era a falta de conteúdo a ser trabalhado. As coleções não ofereciam subsídios, as maquiagens, escondidas sob uma falsa e chatíssima premissa minimalista, causavam tédio nas repórteres de beleza.

Penso já faz algum tempo que esse modelo de exposição de moda - temporadas de seis em seis meses - já não atende mais à demanda exigida pelo mercado da moda. Vivemos tempos de extremo dinamismo. Tempos em que uma rede de fast-fashion lança uma coleção por semana e em que criações são copiadas com velocidade assombrosa. Estilistas, um apelo, impressionem-nos! Se não pelas boas matérias, resenhas e publicidade gratuita que podem obter, pelos clientes que não querem perder.

Um tchauzinho meio desenxavido...

ATUALIZAÇÃO - o Rony Meisler, diretor criativo da Reserva (@RESERVATWEET) enviou-me uma resposta pelo Facebook e concordou que eu a publicasse aqui. Acho que ela agrega algo à discussão:


"Oi Augusto.

A moda no Brasil está passando por um momento de transformação, consequencia da maturidade do mercado.

O que todos até aqui consideravam bacana mudou. O mundo mudou.

No Brasil temos grandes talentos no que diz respeito a costura e ao mkt pessoal. Aprenderam ao longo do tempo a usar a máquina (mídia, spfw e etc) para fortalecerem suas marcas pessoais e ganhar dinheiro com licensiamentos depois. Reflita bem.. Foi recorrente ao longo dos últimos anos.

Meio que se manualizou o formato do que é bom ou ruim em termos de moda e quem fazia algo diferente era rapidamente estigmatizado pela mesma máquina que alavancava o nonsense. Se determinou uma moda legitimamente brasileira que de brasileira nunca teve nada e uma máquina que trabalhou por pelo menos 10 anos na construção destes mitos.

Aqui mitificou-se por muito tempo o nonsense e o blasé. No Brasil alguem era e ainda é considerado um gd estilista sem vestir uma quantidade de gente capaz de encher uma casa, isso, na minha oponião sempre foi uma séria anomalia. Na realidade nunca entendi isso.

Sempre soube que hora ou outra isso deixaria de colar e seguimos fazendo o que acreditávamos.. E, de fato, o mercado amadureceu, a imprensa amadureceu e, principalmente, o consumidor mudou radicalmente. O sintoma que vc percebeu é óbvio, o velho formato caiu.. Foi justamente o que nos sensibilizou para a criação de nosso inverno, a causa é tão forte que tratamos como tema.

A moçada, sua geração, não quer se vestir, quer se comunicar. A roupa tem que falar, tem que ser 3.0 e preocupada socialmente. A marca de moda ou de qq outra coisa não é mais objeto de consumo, é melhor amiga, com quem convivemos, trocamos, brigamos e admiramos. A marca para sobreviver, assim como em todo relacionamento, tem que ser engajada emocionalmente com seus amigos e amigas e ter a venda como consequencia, não como causa.

Estou muito feliz em perceber que a moda neste país começa a dar sinais de - nova - vida. A vida é como a natureza, não é claro p nós que sempre antes do tsunami o mar recolhe  ?

Bjs e parabens pelo texto. Se quiser publicar minha resposta fica a vontade, presente proce!"

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sobre a Cafonice Intrínseca

Antes de começar o post, um alerta: este texto contém dosagens consideráveis de ironia. No caso de não compreensão, sugiro a visita a algum blog de esmalte do dia :)

Recentemente, tive publicado na Revista Iara - uma das únicas publicações científicas de moda do país - um artigo meu que fala sobre a influência do Modernismo no vestir das mulheres paulistanas na década de 1920. O texto é composto por alguns escritos meus que fazem parte de um trabalho que realizei em grupo no ano retrasado, na Universidade de São Paulo. (link para quem quiser ler o artigo todo: http://bit.ly/aASVRZ).

Sex and the City em 1920... nessa temporada tinha uma mulher a mais...

Pois que num dos primeiros parágrafos do texto falo sobre duas coisas que se chocam e se complementam ao mesmo tempo: cultura de elite e cultura de massa. Essas são duas modalidades culturais bastante parecidas. A primeira é feita pela elite, para a elite e a segunda é feita pelo povão e para o povão e quando as duas se chocam é uma loucura!

"Ma che cazzo isso tem a ver com as modas" pergunta a monete fashion?

("Muinto difisio!" FASHION, Monete)


Aquenda, bee! No começo do século XX, a pesquisadora Gilda de Mello e Souza publicou um estudo chamado "O Espírito da Moda", um senhor livro que esmiúça o sistema da moda no Brasil colonial. A que conclusão tia Gilda chegou? A moda ainda seguia aquele velho mecanismo do Renascimento - época em que a Moda como conhecemos teve início. No tempo de Da Vinci e de Guttemberg, o sistema da moda funcionava da seguinte maneira, simplificando bastante: A nobreza mandava fazer suas toaletes e vestimentas e a burguesia copiava. A nobreza, querendo diferenciar-se da burguesia, mandava fazer novas roupas e assim sucessivamente. Logo, a nobreza ditava a moda e quando se percebia que aspectos da cultura de elite haviam sido apropriados pela cultura de massa, eram promovidas mudanças.

"Que arranjo de cabeça uó! Vou fazer o próximo no André Lima!"

O tempo passou, os tipos móveis ficaram obsoletos e o sistema da moda mudou. ficou mais complicado. Depois da metade do século XX a cultura popular abalou o reinado da cultura de elite. Claro que o assunto não é tão simples assim. Nesse angu todo existe toda uma parte teórica sobre legitimação, mas o texto precisa terminar hoje... A partir dos anos 1960 a moda parece ter abraçado definitivamente a cultura das ruas, principalmente o modo de vestir dos jovens. Uma das maiores provas é a jaqueta perfecto, ícone punk, desfilada em uma apresentação de alta costura de Yves Saint Laurent.

Tudo isso para dizer que com o tempo a turma aprendeu que, pelo menos na área do vestuário, nem tudo que vinha do povão era porcaria. Na contemporânea, agitada e hypadinha década de 2010, vivemos tempos em que o discurso de liberdade e de quebra de preconceitos parece ter se institucionalizado - viva a liberdade institucionalizada! - Vamos, ao mesmo tempo, salvar os animais, as guedes, a camada de ozônio e os ursinhos carinhosos. #CapitãoPlanetaFeelings


Olha o Capitão Planeta arrasando no colorsbroques!

No entanto, é só colocar o Michel Teló para cantar que chovem ameaças de morte - e de suicídio também. Mesmo tendo esse discurso sobre tolerância tão propalado, ainda somos intolerantes àquilo que nos é estranho e alheio à nossa cultura. Michel Teló é cafona e de mau gosto, mas o mash up com A-ha é legal. Por quê? Por causa de uma coisinha chamada "legitimação". 

Trocando em miúdos, legitimação é aquela amiga sua com quem você vai se consultar quando está a fim de um carinha. Se ela disser que ele é ok, você pega, se disser que ele não é bom para você, você faz a fina, compra um cosmo e flick your hair - mas se for meio bisca, pega do mesmo jeito. Quando você mistura a letra sofrível de "Ai se eu te pego" com a melodia cult de "Take on me", você dá o aval para certo grupo apreciar a música e bater um glorioso cabelaço ao som dela.






O recado que fica é: não precisa idolatrar o sertanejo, nem beijar o chão que a Ivete Sangalo pisa, mas olhemos para aquilo que achamos "cafona" com um pouco mais de bondade no coração. Assim, não ficamos bitolados no mundinho das coisas que conhecemos e adquirimos repertório para "pensarmos fora da caixa". 

sábado, 14 de janeiro de 2012

Paola, a Usurpada

Por acaso esta imagem já surgiu na dashboard do seu Tumblr?

Kiss my ass Éxupery

Pois é… eu que fiz! hahahaha

Ela faz parte de uma série de ilustrações que eu fiz enquanto treinava um pouco de Photoshop. Essas aqui são da mesma família:

Greta

molecada

Postei algumas delas no meu tumblr semi-abandonado (www.augustopaz.tumblr.com) e qual foi a minha surpresa quando vi que minha linda Paola Bracho estava viajando pelos mares digitais dessa World Wide Web véia sem porrrteira!

Os amigos perguntaram se eu não fiquei aborrecido, pois muita gente reclamava a autoria da imagem. No começo fiquei um pouco ressabiado, mas minha gente, imagem pra internet e filho a gente cria pro mundo! hahahaha.

Agora, quando copiam texto meu e não dão crédito fico um pouco irritado, mas logo passa quando eu me lembro que o sistema de indexação do Google joga o povo que copia láááááá pro final da lista. A cópia é uma legitimação de um trabalho. A Mona Lisa, que está longe de ser a pintura mais bonita do mundo, só ganhou o status de quadro mais importante da Humanidade porque foi justamente o mais copiado.

Então um beijo para quem copia e massageia o ego dos verdadeiros criadores :D

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Herchcovitch - Inverno 2012

Aos especuladores: isto não é uma cobertura por conta própria. Só escrevi porque deu vontade.



Explorando novos materiais para sua linha jovem, Alexandre Herchcovitch agrega a sua coleção invernal veludos e rendas e brinca com estampas. O clima se alterna entre o militar – representado pelas estampas camufladas – e o setentismo – trabalhado através das cores desgastadas e das modelagens. Elas usam macacões muito simpáticos, saias rendadas e cintura alta. O rigor da alfaiataria – que nesta coleção nem é tão rigorosa assim... – se mistura à malemolência dos tricôs e ganha bossa. Os meninos, menos prestigiados nesta estação, vestem calças skinny, de corte reto e camisetas coloridas. Tudo bastante descolado. Uma pequena ressalva aos visuais recatados demais para as meninas. Será que o público feminino brasileiro adota as saias comportadíssimas e os colarinhos altos?

Fotos de Site Chic

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Maxime, Rony e moda pra pensar…

Ora, ora! O mundo dá voltas e as coisas acontecem numa velocidade que a gente nem imagina. Pois que neste ano, completamente de supetão, duas das minhas marcas mais queridas anunciam que vão pular a temporada. As descoladas British Colony de Maxime Perelmuter e Reserva de Rony Meisler tiram um pequeno recesso.

British-ColonyOs navais bacanudos da British Colony

Posso não ter visto muitos de seus desfiles, mas são marcas que me impressionam por seu trabalho. Maxime é um dos estilistas cujas peças mais me interessam. Sua última coleção de inverno apresentou uma leitura muito interessante das referências navais, fugindo do clichê das listrinhas azul marinho e das cordas e âncoras.

SAM_6252Óculos malucos Lunetterie by Maxime Perelmuter

Rony Meisler me encanta tanto quanto Maxime, mas por motivos um tanto diferentes. Um trecho da mensagem enviada à imprensa notificando seu afastamento temporário das semanas de moda explica o motivo da minha admiração: “[usar] a roupa como mídia para uma mensagem – ou barulho, como gostamos de chamar – maior”. Ora, não se iludam pensando que a moda é um sistema sintático – “meias vermelhas significam isso, camisas brancas significam aquilo…” – A moda, ou o espírito da moda, como preferirem, é muito subjetiva. Não que algumas peças específicas não tenham sua carga semiótica específica, mas não dá para atribuir significados diretos para toda peça de roupa. E de umas temporadas para cá, essa era justamente a magia da Reserva. Os desfiles, pelo menos os de duas, três temporadas para cá, suscitavam discussão, davam coceira no cérebro e vontade de pensar – e de escrever!

Reserva Verão 2012Reserva Verão 2012_
Reserva Inverno 2012 (Fotos do @charlesnaseh do Site Chic)

Tomo como exemplo a última coleção de Rony, em que era feita uma crítica aos modelos ditatoriais e a velhos ídolos que acabaram se tornando caricaturas ridículas. A crítica era mais direcionada a Cuba e a seu sistema socialista falido – moral e financeiramente. Ao fundo da passarela, a emblemática figura de che Guevara portando um brilhante nariz de palhaço e ao centro, um grupo de atores, vestidos e maquiados como palhaços simulava uma linha de produção de charutos. A coleção? desconstruia o cargo em forma de bolsos gigantes e malhas molengas. A estamparia fazia um mash-up de McDonalds com socialismo. Tudo regado fartamente com muita ironia. Em sintonia afinada com o espírito da Geração Y. Houve quem achasse tudo aquilo muito over. Engraçado… não me lembro de ouvir ninguém criticar as macaquices sem sentido de Lady Gaga desfilando para a Mugler… just sayin’…

Reserva

Em seu comunicado oficial, Rony diz que guarda o Inverno 2012 para uma sátira sobre a falta de originalidade contemporânea e diz que nesta temporada a marca testará novas formas de comunicação. Aí fico pensando se o estilista não tem para si que o modelo de desfile de moda já não está ultrapassado e que seu propóstito foi subvertido de tal maneira que tenha perdido seu significado.

Sei lá… Rony me faz pensar…

E Maxime me faz suspirar…

Boa sorte aos dois nesta temporada!