quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Eterno Retorno das modas

 

Titio Nietzsche, se vivesse hoje, estaria sentado no alto de uma confortável poltrona a sorrir e a nos dispensar um olhar meio de soslaio. Um olhar que diria “Eu não falei que estava certo?”. Não, ainda não emitiram o atestado de óbito de Deus, eu me refiro à teoria do Eterno Retorno. De acordo com ela, nossas vidas são um contínuo repetitivo atrelado a fatos específicos. Fatalista, não?

nietzsche1875Gott ist tot. Wir töteten ihn [alemão para “Pele é tãããããão last season!”

O que isso tem a ver com moda, Augusto? Eu chego lá.

Pois hoje vivemos tempos bastante contraditórios. A Europa está falindo. Os Estados Unidos tiveram o crediário recusado no Magazine Luíza, a Grécia está vendendo o almoço para comprar a janta [update: a nota do último almoço grego foi rebaixada para XXX-], a Itália segue o mesmo rumo e a França, ao que tudo indica, é a próxima a entrar para a turma dos nouveaux-pauvres [Sim, eu leio o noticiário econômico! Existe vida além da Vogue!]. Do outro lado, o pessoal que antes entrava pela porta da cozinha, Brasil, Rússia, Índia e China – O BRIC – ganha, a cada dia, mais relevância no cenário econômico mundial.

61570-greek-prime-minister-george-papandreou-attends-a-session-at-Primeiro Ministro grego George Papandreou. Ele não está feliz

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Angela Merkel, presidente alemã. Ela não está feliz… em especial com o George Papandreou.

Pela primeira vez, parece – repararam que eu negritei? – que o nosso lado da grama é mais verde, mas não podemos nos enganar. Vivemos momentos de crise e, ao que tudo indica, essa aí vai fazer o Crash de 29 parecer um piquenique.

A moda, no entanto, não dá sinais de preocupação com esse cenário decadente. Pelo contrário. Vive-se um tempo de saturação visual enorme! Até o novo minimalismo é over! Olha o color blocking que não me deixa mentir!

Não é a primeira vez que isso acontece. Basta abrir qualquer livro de História da Moda – Laver, Braga e cia ltda. – para atestar que durante os anos 30, em pleno cenário pós quebra da Bolsa de Nova York, o que vigorou foi o fastidioso glamur hoolywoodiano com direito à sensualidade e nonchalance das divas da grande tela. Palpite meu, uma forma de escapismo.

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Marlene Dietrich e Anna Dello Russo feat. Flamingo Assassino

O que faz o titio Nietzsche abafar suas risadas atrás do bigode é que hoje fazemos a mesma coisa. Não que as coisas estejam calamitosas, mas certamente, não estão tão boas quanto nossos amigos euro-ianques gostariam. Em recente palestra que aconteceu em Belo Horizonte, a editora de acessórios do WGSN, renomado escritório de pesquisa de tendências, apontou como caminhos para as temporadas futuras uma estética retrô, de metais envelhecidos, materiais rústicos, cores saturadíssimas – quase infantis – e muita, mas MUITA ironia. Ora, se não é mais uma demonstração de escapismo? “É a moda da crise entrando em cena” Disse-me uma colega jornalista de um grande portal. Já que não dá para resolver o problema, vamos nos sentar e rir da nossa própria ruína! Existe um ditado de um país exótico que versa sobre os problemas. Se eles são ínfimos e não nos incomodam, por que perder tempo com eles? Se eles são gigantescos e não temos como resolvê-los, por que perder tempo com eles também? E parece que foi isso mesmo que a moda fez, olhou para o outro lado – Não estou fazendo juízo de valor, ok?

A dúvida que fica é a seguinte: sabemos que no mundo quem dita a moda é quem tem a grana. Sendo assim, que rumos o mundo das modas tomará agora que tudo aponta para uma derrocada do eixo Estados Unidos-Europa? Será que vamos finalmente resolver nossa crise de identidade de moda? É melhor que o façamos prontamente, antes que sejamos obrigados a vestir mais produtos chineses [a câmera captou duas it-girls chorando na plateia agora]. E qual é o estilo brasileiro? O calculado despojamento carioca? O globalizado yuppie paulistano? O minucioso artesanal mineiro? O technokitsch paraense – novo produto exportação do Brasil? Não é possivel dizer. E também nem é saudável que um país de proporções tão grandes como o nosso seja tão visualmente massificado.

Não pensem vocês que fazer o estilo brasileiro ecoar pelos quatro cantos do mundo será tarefa fácil. Uma das heranças que nosso saudoso ex-presidente Fernando Collor de Melo (OI?!) nos deixou foi uma extensa lista de indústrias têxteis falidas e um parque industrial têxtil sucateado. Antes de me atirarem pedras, porretes e Melissas falsificadas, digo que quem me contou isso foi um dos medalhões das modas e quase todos os meus professores de Tecnologia Têxtil. O Brasil ainda é uma marca sem produto. Vendemos um estilo de vida invejável, mas na hora de entregar o produto, não passamos das Havianas.

30_detailsWomens_13_C2_01Havaianas – uma hora todo mundo vai usar MESMO e a gente vai precisar vender outra coisa!

Sei que me falta um pouco de pesquisa, mas sou otimista. Não quero ser chamado de “Pollyana das Modas”, no entanto, vejo que meus contemporâneos – salvas exceções – estão cada vez mais preocupados com o conteúdo, com o savoir faire. Conversando com profissionais do setor educacional, ouvi que a febre das aulas de desenho foi substituída por uma procura imensa por aulas de costura e modelagem. Será que finalmente os pretensos estilistas-estrelinhas cederão lugar a profissionais bem preparados, que saibam planejar e EXECUTAR? Eu espero do fundo das minhas entranhas que sim. Pode ser essa uma das chaves que vai nos libertar do Eterno Retorno das Modas.

6 comentários:

  1. Foi e vai ser sempre assim... É como um moinho d'água.

    Excelente texto Augusto

    bjss :):)

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  2. Só agora meu cérebro captou a ironia de meu ex-professor de Geografia, quando, na 8a série, ele virava o mapa-mundi de cabeça para baixo e dizia que "os que estão embaixo virão para cima". Bem, não tão em cima, mas como você mesmo disse, sejamos otimistas...

    Excelente texto e linha de raciocínio, para variar ;) beijão!

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  3. Só te digo uma coisa: quero ser tu quando eu crescer!
    Seu lindo e inteligente!
    Bjs

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  4. Amor, que orgulho de você. Escreva mais, pra eu ir aprendendo sempre com seu conteúdo e sua ironia. Beijos com amor.

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  5. Olha, seu blog e ,muito lindo adorei, mas vim te fazer um convite, da uma passada no meu blog é se gostar pode segui-lo e comenta-lo que logo farei o mesmo beijos...

    email: heenrii.albuquerque@hotmail.com

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  6. inteligentíssimo, os consumidores precisam ver que a moda é uma indústria como todas as outras, e se elas estão em crise, a "tendência" é investir no bolo de reciclagens e novas modas. acho o brega paraense a cara do brasil, assim como tudo aqui no nordeste. exemplo claro de busca de identidade num momento em que empresas de fora atiram para todos os lados. parabéns!

    iago,
    www.dommas.com.br

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