segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Moda e Gênero

androginia“Dá um bejim!”

Ontem, 28/8, aconteceu o VMA, Video Music Awards, uma das premiações que já foram mais relevantes mas que mesmo assim todo mundo assiste e comenta no Twitter da música americana. Como em todas as premiações do mainstream, o povo das modas fica doido assistindo à entrada das celebridades no tapete vermelho - preto no caso –. Como não podia deixar de ser, Lady Gaga impressionou a todos com seu figurino. Enquanto Katy Perry usava um (desastroso) Dior Couture com direito a Polenguinho na cabeça e Nicki Minaj se fantasiava de Pônei Maldito, Gaga resguardou-se e veio aos holofotes Jo Calderone, seu alter-ego. Camiseta branca, calça preta e topete à la Bob Dylan deixaram o pessoal de boca aberta. Enquanto todas foram de Lady Gaga, Lady Gaga foi de Lord Gaga!

Katy Perry WTFNicki Minaj Pônei Maldito

Lady Gaga ou Jo Calderone

A ideia foi boa, mas está longe de ser nova. Não digo que Gaga seja uma plagiadora, longe disso. A senhorita Germanotta é uma exímia catalisadora do que alguns pesquisadores de tendências e do campo da psicologia chamam de “Espírito do Tempo”, mas isso é assunto para outro post. Há algum tempo o assunto voltou à tona fashion e tem permeado as publicações de moda e desfiles ao redor do globo. Eu aproveito o ensejo para falar um pouco sobre o tema Moda e Gênero. Se eu fosse você, leria até o final. é sempre bom ter repertório para conversar com as bloguetes pseudinhas – e deixá-las com cara de “ué”.

Diana Crane em seu livro A Moda e seu Papel Social diz que nossas roupas são parte definidora de nosso comportamento e muito disso se deve ao fato de que os trajes carregam consigo uma série de significados e simbologias. Não é esperado que um rapaz que se vista como punk se comporte da mesma maneira que um que se vista como um novo dândi, da mesma forma que não se espera que um homem se comporte da mesma forma que uma mulher.

the-dandy-warhols“Fuck the system!!! OI?!”

Antes de continuarmos, é bom ter clara a diferença entre sexo e gênero. Sexo é biológico – direto assim! – Nasce-se do sexo masculino ou feminino – ou hermafrodita, mas aqui não é o caso… –. O gênero, por outro lado, é uma construção social e tem significados diferentes de região para região. A pesquisadora Sandra Lipsitz Bem – Não, ela não é parente do Dr Lipsitz do Rugrats – diz que apesar de todas as diferenças culturais, todas as sociedades definem os papéis de seus indivíduos tendo como base seu sexo.

Como já disse lá em cima, o jogo de gêneros voltou à moda. Mas por que camuflarmos nosso gênero? A História conta histórias de pessoas que, através de suas roupas, levavam vidas duplas como pessoas do sexo oposto. É o caso de Catalina e Erauso e Elena de Cespedes, duas espanholas que, vestidas como homens, deixaram as vidas tediosas que levavam como mulheres, para tornarem-se guerreiras. Existe na França, um caso oposto. François-Timóleon de Choisy foi um nobre que, por um capricho de sua mãe, vestiu-se de mulher até os 18 anos. Ele deixou um diário recheado de páginas onde manifestava seu desejo por voltar a vestir-se de mulher.

catalina-erauso-pasaje-historia2E você achando a Tammy Gretchen transgressora...

Na moda, a distinção mais clara dos gêneros começa na Idade Média e torna-se mais notável depois da Revolução Industrial. É nesse momento que a mulher se transforma em um troféu de seu marido e precisa se vestir com muito luxo para mostrar que tem um marido rico (#KhadijaFeelings) e apertar-se o máximo possível, de modo que não pudesse se mover e mostrar, assim, que seu marido era tão rico, mas tão rico, que podia contratam uma boa meia dúzia de empregados. Enquanto isso, os homens vestiam-se sobriamente, de preto e azul marinho.

No geral, é muito mais comum ver mulheres simulando a imagem masculina que o contrário. Podemos citar os dândis como exemplo do contrário a partir do momento em que são homens de vaidade extrema, um valor decididamente feminino. No século XX vemos ainda mais distorções de gênero. Nos anos 20, 30 e 40 as mulheres tomam muitas atitudes – e roupas – masculinas. A tendência se arrefece nos anos 50 com o surgimento do New Look de Dior.

Portrait of the Journalist Sylvia von Harden 1926Retrato da jornalista Sylvia Von Harden, 1926

Atualmente, podemos falar de Raquel Zimmerman e Agyness Deyn. Duas modelos que lançaram mão de atributos e poses masculinas em editoriais; James Franco, que posou vestido de mulher para a revista Candy; Lea T, que foi apadrinhada por Ricardo Tiscci da Givénchy e Andrej Pejic, cuja imagem é uma esfinge de gêneros. A confusão com Andrej é tanta que a capa da revista Dossier foi censurada porque os “peitinhos” do loiro/a ficavam expostos.

Andrej-PejicPagou peitinho, hein Andrej!

Raquel ZimmermannAgyness Deyn for Doc Martens
Raquel Zimmermann para Jean Paul Gaultier e Agyness Deyn para Doc Martens

james-franco-candy-magazine
James Franco para revista Candy

O lance é que parece que vivemos tempos mais femininos. As estatísticas não deixam mentir: as mulheres estão começando a tomar conta dos lares brasileiros e quando digo “tomar conta”, quero dizer que começam a encabeçar as decisões tomadas dentro de casa e administrar o dinheiro da família. Nada mais natural que sua estética permeie a figura masculina. Este ano a Levi’s lançou o modelo “Ex-Girlfriend Jeans”, uma calça mais justa que a providência divina feita para homens.

leaTLea T para Givenchy (é a de batom vermelho)

Andrej PejicAndrej Pejic

O que se conclui disso? Na verdade ainda não sei por certo, mas levando em conta que vivemos tempos de subversão de padrões, pode-se dizer que os padrões de gênero são rompidos para provocar, instigar e rejeitar tudo aquilo que é pré-estabelecido para cada sexo.

Um comentário:

  1. concordo plenamente, a moda e a midia
    tem o papel muito mais de instigar
    e provocar as mudanças, que acontecem
    naturalmente e de forma lenta.

    Ao contrario do que protestam por
    ai que o homem está sendo massacrado
    e obrigado a seguir tentendias
    e costumes do genero feminino.

    Toda essa explosão de androgenia,
    não é novidade ou imposição para
    novos comportamentos, ela sempre
    existiu e mais uma vez aparece
    como releitura e se encaixa com
    o comportamento atual da sociedade,
    no tocante, os homens que estão
    incluidos no mercado de consumo
    da moda, estetica e outros segmentos.

    "Todo mundo é bissexual"(j'adore).

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