terça-feira, 17 de maio de 2011

O “novo” é o novo ‘novo’!

 

husseinchalayan
Criações de Hussein Chalayan

Acontece até o fim do mês, na USP Leste, ciclo de palestras intitulado “Antes Arte do que Tarde”. Organizado pela professora Dária Jaremtchuk, os encontros acontecem durante às terças-feiras, das 13h30 às 15h00 e são abertos ao público. O intuito das reuniões é discutir assuntos ligados às artes no Brasil de um jeito descomplicado. O convidado desta semana foi o professor e pesquisador. Seus textos servem de base para aqueles que desejam estudar as artes pós-anos 60.

Favaretto é um grande estudioso do tropicalismo, principalmente do trabalho de Hélio Oiticica – Não sabe quem é? Google nele!!! – Durante a conversa Celso falou sobre algo muito importante, a mudança de paradigmas que acontece a partir do século XX no universo das artes. Agora você me pergunta: Augusto, o que raios tem isso a ver com moda?!

CelsoFavaretto
Celso Favaretto

Como eu já bem disse aqui, moda e arte estão subordinadas às mesmas dinâmicas e a moda procura sempre vincular-se à arte, pois isso agrega valores culturais e tira a imagem de fútil do mundo fashion. Pois bem, a partir do que disse Celso durante sua apresentação, comecei a fazer algumas sinapses neurais.

As vanguardas artísticas do começo do século XX – expressionismo, surrealismo, dadá, fauvismo, cubismo e futurismo - lançaram um conjunto de novas proposições que devem ser objeto de reflexão. Desloca-se o conceito de arte. Até então, em linhas gerais, arte era o quadro pintado a óleo – desde que fosse uma paisagem ou um retrato –, a escultura que retratava uma figura humana etc. Os cânones artísticos eram bastante rígidos e o ideal do artista era reproduzir a natureza com maior fidelidade o possível.

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“Jemte!!! Paresse ki eles é di verdadeeeee!!!! ki lokoooo!!!!! xD”

Então aparece um bando de malucos pintando um monte de gente deformada, colando pedaço de jornal nos quadros e tratando mictório como obra de arte! Que grande ultraje!!! No começo do século existe um deslocamento brusco do que se conceitua como arte. Marcel Duchamp não expôs um mictorio na galeria porque achou engraçadinho. Por trás disso existe um grande questionamento sobre o que é um objeto de arte e sobre sua fetichização. Por que uma peça assinada vale tanto???

Esfacela-se também a imagem do prórprio artista. Antes romântica e romanceada, a concepção de artista era a de um ser iluminado, transcedental, mitológico e tudo aquilo que ele produzia era objeto de culto. Depois das vanguardas, tanto do começo do século quanto as dos anos 50 a 70, essa posição é questionada. O artista moderno é socialmente situado e sua obra é vista como um trabalho artístico. Será que o estilista não está superglamorizado?

Fashion Fight
“Esse rufo Marc Jacobs é meu, perua! Tira os zóio!”

A arte passa a estetizar o cotidiano e o cotidiano invade a arte. Os objetos artísticos invadem lugares do dia a dia, veja o grafite, por exemplo. O lugar onde a arte aparece perfaz a própria arte e nos faz pensar: MAS O QUE DIABOS É ARTEEEEEE??!?!?!?!?!?!?!! AAAAAHHHHHHHHHHH!!!!!!!! *convulsões*.

Maria Callas, New York, 1970
“O que é arte, meu jesuis?…”

A moda, assim como a arte, se faz de pequenos deslocamentos. Veja só você que vivemos até há pouco um revival dos anos 80. Uma hora eram os ombros marcados que estavam em alta, na outra eram os brilhos extravagantes. São pequenas mudanças que se limitam a um campo visual comum. Hoje, estamos em franco processo de transição do over-glam revivalista para um resgate da estética minimalista. É um deslocamento maior, percebe? Da mesma forma funciona a arte. Desloca-se a estética, a forma, o conceito de arte e PAH! Estamos todos embasbacados com as deformadas demoiselles d’Avignon ou com as peças sincopadas de Stravinsky.

O que Celso disse durante sua palestra é o seguinte: “As expectativas da arte já se cumpriram”, sem meias palavras, já rompemos com tudo quanto havia para romper. Não nos chocamos mais! Nem com as “bizarrices” da Lady Gaga, nem com o sanguinolento “Cidade Alerta” nem com uma multidão de teletubbies dançando a macarena na Avenida Paulista. A vida metropolitana entorpeceu nossa capacidade de nos chocar e se não nos chocamos, não existe novo. Quem nunca assistiu a um desfile e ficou meio desapontado, se perguntando “o que tem de novidade aí???”. O novo “novo” não tem caráter de ruptura.

Quoi de neuf? De verdade? Não sei que há de novo. Para ser bem sincero, acho que preciso reavaliar o que é “novo” para mim!

terça-feira, 3 de maio de 2011

Fashionista é a mãe!

Oh! Que lindo o mês de maio… mentira! Ainda mais porque o feriado caiu no final de semana! Pelo menos tem o dia das mães para juntar o pessoal e todo mundo comer até a paralisia, afinal, é esse o espírito.
Aproveito o ensejo para fazer um post com tom de confissão. Então lá vai: a verdadeira célula fashion do clã dos Paz é minha mãe, dona Rosangela!

Mãe
Mamãe fashionista tooooda trabalhada num look ladylike lindo!

A culpa de eu ter enveredado para o jornalismo de moda é dela e de meu pai. Morávamos em uma casa cujo quarto dos fundos tinha uma parede reservada para que eu e minha gêmea riscássemos à vontade. O resultado? Aos quatro anos já líamos e escrevíamos com bastante fluência. Nunca tivemos muito dinheiro, mas os livros não faltavam e a diversão era comentar as leituras durante o jantar.

KTD6Os gêmeos cresceram! (Foto by @FelipeAbe)

Mesmo querendo que seu caçulinha (sou o gêmeo mais novo) fosse diplomata, foi minha mãe quem incutiu em mim o micróbio da moda – com o perdão da paráfrase. A casa sempre foi forrada de revistas de moda, Vogue, Criativa, Manequim, Elle etc o que fez com que desde criancinha eu me deliciasse em destroçar todas essas publicações. Entre uma página rasgada e outra, comecei a ver os modelos e depois ler as reportagens. Foi o que bastava.

O tempo passou e nos mudamos para uma casa maior, com um quintal gigante. A grande brincadeira dos gêmeos era rolar pela grama e tentar transformar nossa cachorra Quitéria em um pônei. Quando pedíamos uma fantasia ou roupa diferente para incrementar as brincadeiras, mamãe colocava em prática seus conhecimentos em alfaiataria (ela não sabe nem colocar a linha na máquina de costura) e improvisava trajes incríveis feitos em jornal (viu, Jum Nakao? Dona Rosangela fez antes!). Eu achava tudo aquilo impressionante! Na verdade minha mãe fazia um grande tubo de jornal, cortava uns buracos para os braços e a cabeça e pintava tudo com giz de cera.

CriaçõesCriações da Maison Rosangela (eu sou a árvore míope)

Os anos foram correndo e eu aprendi que quem rasga Vogue vai pro inferno. As coisas melhoraram em casa e contratamos TV a cabo. A contragosto do meu pai, que queria ver futebol, minha mãe passava noites assistindo ao Fashion File no canal E! Eu ficava brincando de Lego na sala e espiando os desfiles de Yohji Yamamoto, Yves Saint-Laurent, Gianfranco Ferré e muitos outros. Na verdade, eu achava aquilo um pouco chato, mas com o tempo fui pegando gosto pela coisa. Até que em um sábado à tarde, na presença dos meus pais, pedi para que minha mãe me ensinasse a fazer tricot. Os olhos do meu pai ficaram do tamanho de um pires. Ele disse “É coisa de mulher!”. Eu retruquei com todos meus sete anos “Não é não! O Giorgio Armani faz também!”.

Mais tarde, dona Rosangela ficou bastante amiga de uma vizinha, dona Lourdes. A piauiense é uma costureira de mão cheia que já fez muitos vestidos para atrizes, mulheres importantes daqui da nossa cidade e para quem mais pagasse em dia. Nessa época eu queria ser advogado – mamãe é persuasiva… – mas meu interesse por moda já era declarado.

Mãe 80'sMamãe at the 80’s

Desisti do Direito e passei a visitar o atelier da Dona Lourdes com mais frequência. Quando dei por mim, tinha virado uma espécie de pupilo dela. Aprendi o básico de costura, acabamento, modelagem e depois consegui meu primeiro emprego no ramo da moda. Tornei-me assistente de um estilista daque de Saint Andrew of the Field’s Border (Santo André da Borda do Campo, Santo André para os íntimos). Saí do emprego para fazer minhas próprias peças com uma sócia. O negócio durou pouco… Aproveitei o tempo ocioso e fui estudar costura e modelagem no SENAI. Lá eu conheci bastante gente doida com quem mantenho contato até hoje.

Mamãe percebeu que era muito mais vantajoso ter um filho estilista que um filho advogado, afinal, em uma família tão numerosa quanto a nossa – só de tios-avós eu tenho 30 – há muito mais casamentos que ações judiciais. Perdi a conta de quantos vestidos eu desenhei para ela.

Mãe 980002
Eu, mãe e minha gêmea no nosso aniversário de sete anos

Com o tempo fui vendo que o jornalismo de moda era muito mais interessante para mim que o estilismo e mamãe continuou com seus delírios de estilista – sempre concretizados pela dona Lourdes. Sabe aquela história do filho que desenha as roupas da mãe. Agora é o contrário! (O detalhe é que ela desenha as roupas pra ela mesma e eu roubo tudo…).

Enfim, tudo isso para dizer não tem pra ninguém! Dona Rosangela é a it-girl mais hypada do rolê! Ela rouba meus brindes de Fashion Week, me liga durante as semanas de moda para comentar as coleções e está por dentro de todos os bafóns das griffys!

Besos para mamá e feliz dia das mães!