quarta-feira, 30 de março de 2011

Manifesto #2: Aos amigos uspianos – e a quem mais interessar (atualizado e corrigido)

each



Mal o ano chegou à metade, já aconteceram muitas coisas significativas nesse mundão de meu Deus: bate-cabelo no Oriente Médio, terremoto + tsunami no Japão, clipe novo da Stefhany e, mais recentemente, o vazamento e divulgação do relatório que propõe reformulações na Escola de Artes, Ciências e Humanidades, a EACH-USP, minha querida escola!

O documento foi redigido por um Grupo de Trabalho composto por sete docentes da Universidade de São Paulo e propõe mudanças um tanto drásticas no campus e nos cursos da USP-Leste. Durante este mês, o relatório vazou e foi publicada matéria no portal IG comunicando em primeira mão as tais mudanças. Uma delas seria a possível extinção do curso de Obstetrícia. A esse respeito posiciono-me contra, afinal, a demanda por obstetrizes (não sabe o que significa? Google, melbem!) é comprovada. O que acontece é que os conselhos de enfermagem [COFEN e COREN] não reconhecem o curso (#FAIL), o que se faz necessário para que os formados possam exercer sua profissão.

Falarei aqui sobre o Bacharelado em Têxtil e Moda. O documento fala bem sobre o curso, ressaltando seus pontos positivos: a alta procura (15 candidatos/vaga no último vestibular), suas grandes parcerias internacionais, a alta empregabilidade dos alunos egressos e as interessantes optativas oferecidas, que servem como especialização. Apesar de o relatório não propor nenhuma mudança em relação ao curso, os professores da graduação decidiram fazer algumas mudanças. Dentre as reformulações, consta um corte de 30 20 das 60 vagas oferecidas e mudança no nome do curso para Design de Têxtil e Moda – a troca do nome implica em reformulação da grade curricular.



Novas disciplinas incluem “Estudos Aplicados da Hipsterologia 1 e 2”

O que aborrece os alunos de Têxtil e Moda é que esses câmbios foram propostos pelos docentes sem que os alunos fossem consultados.

Como já era de se imaginar, a divulgação do relatório e das mudanças no curso de moda deixou os alunos em polvorosa. Os da USP Leste, que temem por mudanças muito drásticas e os da USP Butantã que são temerosos de que a tal reformulação chegue à zona oeste. Há também uma terceira categoria: os alunos que ficaram ouriçados com a oportunidade ímpar de exercitar seu trololó pólítico pseudo-esquerdóide.



Pichação feita hoje contra a tirânica reitoria

Esta manhã, durante a aula de Sociologia da Moda, fomos interrompidos por duas alunas do curso de Ciências Sociais – ministrado no campus Butantã. Devo dizer que o discurso me assustou um pouco. A oradora dizia que a reformulação atingiria “tanto a EACH quanto a USP” e que não deveríamos nos sentir sozinhos, pois poderíamos contar com o apoio dos discentes de Ciências Sociais. Por fim, questionou a eficiência da reitoria e nos convidou todos a engrossar um protesto.

A ela, cujo nome furtei-me em perguntar, lanço a questão: quantos alunos de Ciências Sociais, ou de qualquer outro curso da USP Butantã, dignaram-se a ir aos confins da zona leste (ou zona lost, como preferir) perguntar aos alunos de Têxtil e Moda se estamos de acordo com a reformulação a que nosso curso está sujeito? Não me recordo de nenhum… Depois, “tanto a EACH quanto a USP”? Really? Somos tão uspianos quanto qualquer estudante da USP Butantã. Também passamos na Fuvest, também comemos sobremesas exóticas no bandejão e também sofremos com o Setor de Graduação.

Say whaaaaaaat?!


Agora, quanto à ajuda… puxa, fico extremamente comovido ao saber que temos colegas uspianos tão beneméritos em nossa instituição! – Pausa para enxugar a gorda lágrima que rolou de meu olho esquerdo. Francamente? Poupem-nos dessa falação falaciosa (perco o amigo, mas não perco a aliteração!) Poupem-nos do lobby barato e pensem duas vezes antes de nos convidar a bater panelas!

O que as duas moças muito provavelmente não sabem é que a Têxtil – é esse o apelido de “Bacharelado em Têxtil e Moda” – se beneficiará muito com a reformulação. Classes com número de alunos reduzido otimizam a qualidade do ensino. Botando em termos mais palpáveis, imagina dar assessoria de trabalho para 60 alunos! E aula de desenho então? Modelagem, pior ainda! Ainda por cima, a redução de vagas vai amenizar o problema da falta de docentes capacitados para Têxtil e Moda. A USP só contrata professores com título de doutorado. Diz aí quantas modelistas doutoras você conhece? (Se conhecer, mande um email pra EACH! Há vagas!). E outra: há salas superlotadas. Em algumas aulas cujo índice de repetência é grande, há alunos sentados no chão.

Aula de Estatística 3, segundo período.


Portanto, meninas de Ciências Sociais – e a quem mais puder interessar – BACK OFF!!!!!!!!! Não percam seu precioso tempo tentando pescar votos para a próxima eleição do DCE – Diretório Central dos Estudantes – e, por favor, empreguem seu espírito benemérito em nos poupar do blá blá blá e da politicagem.

A quem não é da USP, não será atingido pelas mudanças, nem teve a aula de Sociologia da Moda interrompida, fica meu recado: Não deixem que tomem as decisões por você! Pois foi dada hoje a prova de que é isso que estão tentando fazer conosco.

*  *  *

Obrigado a @franfrane pela ajuda!

segunda-feira, 28 de março de 2011

Entrevista: a ilustradora de moda russa Aksiniya fala sobre arte, moda e referenciais

IMG_6179 Imagens (Reprodução)

No alto de seus 24 anos, Aksiniya é uma das ilustradoras de moda e designer de estampas mais promissoras dos últimos tempos. Diretamente da China, a russa cedeu uma entrevista ao blog. A artista fala sobre suas referências, sua história no mundo do desenho, sua relação com a moda e comenta sobre arte digital. Quem acompanha o blog sabe que eu morro de amores pelo trabalho maximalista de Aksiniya. Vale a pena conferir o ponto de vista dela:

Augusto Paz - Quais são suas origens? Onde você estudou?

Aksiniya – Sou nascida e criada na Rússia. Todo mundo na minha família ama arte e mais, todo mundo desenha muito bem. Então, as raízes da minha paixão pela arte vêm da minha árvore genealógica, literalmente, uma vez que sou parente do artista russo Grekov.

Quanto ao desenho, começou com meus primeiros passos, ou mesmo antes e ainda é uma das coisas que mais gosto de fazer. Tenho estudado na Itália e na Rússia, mas não Artes. Minhas especialidades são Literatura Russa e Jornalismo.

Artaksiniya

AP – Quando você começou a desenhar?

Aksiniya - Tenho trabalhado como ilustradora em meio-período desde a escola primária. Era muito engraçado, porque eu era uma entusiasmada ilustradora de uma história em quadrinhos supostamente engraçada que contava a história de um garotinho ridículo. E ninguém podia imaginar como eu estava cansada daquilo. Mesmo agora, meia vida depois, eu me orgulho do meu profissionalismo na época.

Mas o negócio ficou sério mesmo em 2006, quando eu não podia mais ignorar a quantidade de pessoas que queria um trabalho meu. Decidi dedicar minha vida às coisas que eu mais amava e não perder tempo em vão.

Artaksiniya6


AP – Quais são suas maiores referências?

Aksiniya - Eu gosto dos pré-rafaelitas, expressionistas e Jugendstil desde a infância... Era um mundo cativante de linhas sofisticadas, cores vibrantes e composições mágicas.

Eu amo Klimt, Hodler, Mylnikov (artista russo), o grande ilustrador russo Mikhail Maiofice...
Quanto à arte moderna, estou apaixonada por John Currin e Hope Gangloff.

Eu, pessoalmente, sou uma mulher apaixonada e estou entediada com pinturas sem energia e com desenhos meticulosos demais. O que quero dizer é que deveria haver algo implícito em vez de esforço explícito para agradar ao espectador.

artaksiniya 5


AP – Qual sua relação com a moda?

Aksiniya – Eu amo moda. Não pelo poder de transformar o modo de vestir a cada temporada, mas admiro a moda pelo seu poder de inovação, como a arte.

Fui cercada de revistas brilhantes desde muito nova e eu as achava muito legais como enciclopédias de moda e de história do costume, mas não como objeto de adoração. Não ficava babando em cima delas.

Moda e pessoas são minhas inspirações. É muito interessante observar como os designers tentam interpretar a ideia da beleza a cada temporada. E devo dizer, algumas roupas mereciam realmente estar em um museu.

A moda é um grande e espetacular processo que transmite nossas aspirações, medos e sonhos. Às vezes é mais eloqüente que política, porque a moda é um grande complexo de manifestações humanas. Moda é gente. É muito mais ampla que apenas roupas.

Artaksiniya7


AP – Quais são suas prioridades ao desenhar?

Aksiniya - Eu amo desenhar pessoas, especialmente homens. Também gosto de bolsas e sapatos. Mas, honestamente, minha inspiração é como um tsunami. Pode me dominar enquanto eu contemplo os pássaros. Então, não tenho certeza a respeito do que me faz querer desenhar... é algo bonito e vivo. Além do quê, eu não gosto de descrever objetos, sempre preciso de um espaço para minha fantasia.

Também gosto de padronagens intrincadas (é uma demanda comercial bastante grande!).

Artaksiniya3


AP – Conte-nos sobre sua técnica

Aksiniya - Uso minhas mãos, caneta, lápis, lapiseira, tinta acrília. E amo experimentações.
Às vezes apenas desenho com a lapiseira sobre o acrílico, às vezes desenho com lápis e escaneio. Mas, ser parte do século XXI significa estar familiarizada com novas tecnologias. Eu devo dizer que amo computadores. Além disso, eu não enfatizo o método de criação de uma figura. Acho um esnobismo e uma hipocrisia pensar que imagens digitais não são tão boas quanto as desenhadas à mão, no papel... É tudo uma questão de observar e de gostar... ou não.

Minha técnica é reflexo da minha imaginação. Às vezes basta pegar uma folha de papel. Às vezes eu preciso de um algo mais.

artaksiniya 4


AP – Conte-nos sobre seus projetos futuros

Aksiniya – Não existe um só dia sem desenho para mim. Eu me sinto muitíssimo mal se não posso desenhar. Não é vício, é parte da minha natureza. Na verdade, eu não procuro algo para fazer, é esse algo que sempre me encontra. Então, eu não planejo.

Esta semana estou trabalhando em anúncios, têxteis, projetos de ilustração e livros.

Sendo uma maximalista, intimamente ligada ao mote “veni, vidi, vici”, acho que meu próximo trabalho vai lhe trazer alguma alegria ao observá-lo, ou vai virar assunto para alguma discussão, pelo menos.

artaksiniya 11

domingo, 27 de março de 2011

#SerBlogueiro…

A convite do queridíssimo Gregory Martins, editor do blog de moda masculina Trend Coffee escrevo este texto que conta um pouco da minha experiência como blogueiro.
Vou dizer que começar meu blog foi, sem dúvida nenhuma, uma das decisões mais acertadas que eu tomei na vida, sem exageros. O www.augusto-paz.blogspot.com começou por acaso e acabou por se transformar em um trampolim para muitas oportunidades.

template copy Olha aí! O primeiro header do blog!

Tudo começou quando meu amigo, o designer Jorge Guberte, me sugeriu que começasse um blog. A princípio fiquei ressabiado. Não sabia se teria paciência para alimentá-lo regularmente nem se havia conteúdo para tal. No fim das contas, me deu os “cinco minuto” e pronto! Estava montado o blog!

Meu objetivo inicial era divulgar as roupas que eu desenhava e produzia – na época eu queria trabalhar com estilo e design. Acontece que o gosto pela escrita, que sempre cultivei e que estava um pouco adormecido, ficou maior que o gosto pelo estilismo. O blog se transformou num “cadernão de rascunho” onde eu treinava minha escrita e minha linguagem.

As coisas foram se sofisticando, até que a Thaís Vasconcellos – à época, colaboradora do portal Fashion Bubbles – ficou conhecendo meu trabalho através de uma amiga comum e me apresentou a Denise Pitta, editora-chefe. Tornei-me colaborador e posteriormente redator do site. Foi aí que percebi o potencial do blog como portfólio.

Eu, Ronaldo Fraga e Thiago PhelipeO dia em que conheci Ronaldo Fraga – Meu amigo, o promissor estilista Thiago Phelipe, pegou carona na foto!

Augusto Paz e Laís PearsonMinha querida amiga, Laïs Pearson

Depois que saí do Fashion Bubbles intensifiquei as atividades da minha página e fiquei MUITO contente quando fui convidado pelo Site Chic, por causa do meu trabalho no blog, à première do filme “Chanel e Stravinsky”. Também surgiram convites para eventos como o Première Brasil, importante fórum de tendências sul-americano.

O último e suculento fruto que meu blog me rendeu foi o convite do editor Lula Rodrigues para integrar sua equipe e me tornar um de seus uebaBOYS. “Babe, tenho estado de olho no seu blog. Você está de parabéns” Lembro até hoje da conversa no facebook, em novembro passado. Tive o privilégio de ser assistente direto e subeditor da maior autoridade em moda masculina da Terra Brasilis.

Eu e Lula Rodrigues Eu e Lula! Primeiro contato! uebaDELUXE!!!

Augusto Site Chic
Óia eu no Chic!

Enfim, toda essa viagem ao passado – não muito remoto – para dizer que blog é coisa séria! Não fosse meu blog, eu provavelmente não teria conhecido metade das pessoas que conheço hoje e não teria feito contatos importantíssimos.

Vejo os blogs como um marco muito importante na comunicação. Democratizaram, de certa forma, o acesso à informação e serviram de laboratório para novas linguagens e formatos. É bastante triste que o blogueiro seja visto de maneira tão idiota – quem não se lembra da propaganda do Estadão que mostrava um blogueiro macaco? – Blogueiro de respeito escreve com critério e responsabilidade e tem por paixão transmitir informação de qualidade – dentro do formato e do gênero que escolheu para si. O que me aborrece também é ver os blogueiros e editores de sites que não fazem parte da “panelinha” sendo usados como “massa de manobra”. É aquele esquema “A organização do nosso evento te convida para twittar incessantemente e você ganha um chaveiro lindo :D” Ora, poupem-me.

Não puxo a sardinha para lado nenhum. Viva os veículos formais e viva os blogs! Posso estar sendo ingênuo, mas acredito que haja espaço para que todos convivam e trabalhem bem!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Moda e Corpo

 

Parece um pouco óbvio pontuar qual a relação entre moda e corpo. “Augusto, seu pazzo! As roupas servem pra cobrir o corpo!!!” No entanto, o assunto não acaba aí. Moda e corpo têm uma relação bastante complexa e muitas vezes dolorosa.

Atire a primeira pedra quem nunca espremeu os dedos dos pés só para entrar naquele par de sapatos lindo, ou quem nunca fez regime – eu nunca fiz porque fui geneticamente privilegiado – ou ainda quem nunca correu uns bons kilômetros na esteira só para tentar dar aquela disfarçada nas coxas moles? Tudo isso se relaciona com as interações moda/corpo.

Odeio dieta“ODEIO DIETAAAA!!!!!”

Posso estar me repetindo, mas moda vai além das roupas. A moda abarca comportamento, gosto pessoal e modelos – entre outros. Uma vez estabelecido um ideal de beleza, as pessoas tendem a fazer – quase – de tudo para atingi-lo. A frase parece um clichezão, mas essa é uma dinâmica muito antiga! No Egito Antigo cabeças compridas eram muito apreciadas o que fazia com que as mães apertassem a cabeça dos filhos recém nascidos com faixas muito bem amarradas (ai!).

Os padrões de beleza mudam constantemente. Até os anos 20 era chic ter a pele clara. O bronzeado denotava trabalho rural e trabalho rural era CA-FO-NA! Com a chegada dos “Anos Loucos”, passar férias na Riviera francesa era muito chic, logo a pele bronzeada passou a ser hype. Engraçado perceber que o que hoje é belo, amanhã é ridículo. Imagine a Vênus de Botticelli na capa da Vogue. Difícil, né não?

Vênus“Venus, u’r soooooooo last week!”

Outra relação que podemos estabelecer entre moda e corpo é uma espécie de “body-modification”. Só para situar o nobre leitor, “body-modification” consiste em qualquer modificação que se faz no corpo, desde cortar o cabelo até se suspender pelos mamilos (ai²!!!). Há roupas que dão novos contornos – às vezes permanentes – ao corpo, modificando a silhueta. É o caso dos espartilhos e do sapato scarpin.

Frente a tudo isso, parece que Elsa Schiapparelli estava correta quando disse que não são as roupas que devem se adaptar ao corpo e sim, o corpo que deve se adaptar às roupas.

Espartilho Cinturinha de pilão!

E você? O que acha? Vale a pena se espremer num espartilho? Fazer plástica? Dê sua opinião.