domingo, 27 de fevereiro de 2011

Moda é arte???

 

Já faz alguns anos que esta parece ser a pergunta que não quer calar no meio fashion? Afinal, moda é arte? Minha humilde, modesta e sincera opinião, acho que não. Percebo que muitos fashionistas e pessoas do meio se valem da premissa de que moda seria arte para atribuirem mais validade à moda em si. Trocando em miúdos, vem algum Zé Bedeu e diz: “Moda é idiotice”. O fashionista estufa o peito, mira o horizonte e placidamente responde: “Não. Moda é arte!”

Viktor and Rolf - Moda e ArteViktor and Rolf inverno 2007 – a dupla é famosa pelas criações conceituais

Pensemos da seguinte maneira, o Renascimento assinala o surgimento da MODA, as we know it. E do Renascimento até os movimentos de vanguarda da primeira metade do século XX a arte exercia, entre outros, o papel de reproduzir a natureza. Ainda não vendia tecpix no programa do Datena e o jeito era apelar para a pintura. É o que se chama de seguir os “paradigmas mimético-naturalistas”, ou seja, imitar a natureza. As roupas cobrem a nudez e dão formas inorgânicas ao corpo humano. Bons exemplos disso são os espartilhos, as saias volumosas da época do Renascimento, os trajes dos dandies e por aí vai. O autor francês Baudelaire diz ainda que a moda é a tentativa do homem de alcançar um ideal que supere os modelos naturais. Faz sentido se pararmos para pensar que estamos sempre procurando uma roupa que nos deixe mais magros e mais altos.

Moda e Arte

É muito importante – e lucrativo – para os estilistas levantar o estandarte da Moda-Arte. Da mesma forma como grandes organizações financeiras patrocinam exposições e financiam centros culturais, as marcas tentam se aproximar da arte. Afinal, isso agrega valor cultural à moda e distancia o mercado fashion daquela imagem ignorante de futilidade. Grande exemplo disso são as maisons Prada e Cartier, que mantém seus próprios museus.

A meu ver, moda e arte assemelham-se por estarem subordinados aos mesmos fatores. A temporalidade, por exemplo. No ano passado, participei de um grupo de pesquisas na USP que analisava a influência do movimento modernista no vestir das mulheres paulistanas dos anos 20. A conclusão a que chegamos é que não necessariamente a arte influencia a moda – ou vice-versa – mas que esses são dois fatores que se permeiam e que estão subordinados a um fator que lhes é superior.

Jum Nakao - Moda e ArteJum Nakao em seu famoso desfile-manifesto 

Com essa ladainha toda, não pretendo menosprezar a moda – isso seria dar um tiro no próprio pé – mas expôr um ponto de vista. Ver a moda como um ofício e não uma arte não é demérito algum e o fato de que eu acredite no desvinculamento desses dois fatores não quer dizer que roupas não sejam arte. Já disse Suzy Menkes, editora de moda do International Herald Tribune: “A moda genuína deve ser funcional e, portanto, só pode ser classificada como arte aplicada ou ofício. Se uma peça de roupa não é usável, não é moda. Mas poderia ser arte.”

Outra coisa que pretendo com este post é questionar: qual a real importância desse debate? De que nos importa saber se moda é ou não arte?

E vocês, que pensam? Deixem sua opinião nos comentários.

6 comentários:

  1. Eu considero que moda, a priori, não é arte. É um ofício, como você disse, e que vejo como um trabalho de design (pensando no contexto mais amplo de design como projeto, no qual até a arquitetura - que também não é arte - é uma modalidade de design). Ainda assim, o limite entre arte e design (e, consequentemente, entre arte e moda) é muito tênue, então acredito que moda POSSA SER arte, embora não seja esse seu objetivo inicial. O próprio desfile do Jum Nakao exemplificado nas fotos mostra ao mesmo tempo um trabalho de moda, tanto pela construção das peças como pelo próprio desfile, assim como o happening, um trabalho de arte.
    Um das características da arte moderna e da arte contemporânea é a exploração do material de trabalho, com a consciência de que o material e o suporte do trabalho são componentes que interferem em qualquer mensagem que construírem (um exemplo claro são os "desenhos" do Vick Muniz feitos em arame, assim como boa parte do trabalho do Brancusi). Por esse ponto de vista, também vejo desfiles da Viktor&Rolf como trabalhos de arte, quando eles trabalham a partir de um tema ou de uma peça e desconstroem e reconstroem essa peça de milhares de maneiras, repensando a criação "clássica" de peças de vestuário. Ainda que muitos trabalhos de estilistas usem o mesmo ponto de vista de descontrução e reconstrução, a maneira como as explorações da dupla são feitas, para mim, assemelham-se muito ao trabalho artístico. Mesmo assim, por mais que o trabalho deles flerte com a arte, a função simbólica das peças criadas pelos estilistas não torna descartável a função prática destas. Pelo contrário, é esse flerte com a arte que os torna ainda melhores designers.

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  2. Você tem um ponto de vista interessante, mas há no texto um problema de metodologia.
    Qual é a definição de arte pra você? arte é um conceito extremamente subjetivo e não se pode construir uma opinião sem ter em mente que a definição do leitor pode ser oposta a sua.

    No meu ponto de vista (também modesto e humilde), considero arte como uma forma de expressão individual, que engloba um intenso processo de criação, de transformação de um imaginário em realidade.
    Nesse caso, considero sim que moda, ou ao menos a profissão de estilista, seja arte.
    Outra coisa: acho que é necessário diferenciar moda (termo extremamente geral) e o mercado da moda, esse que faz necessário a sua função prática para poder vender.
    Se falamos de mercado da moda, já saímos do processo de criação puro, de idéias e referências, e entramos na esfera do ofício. O importante aqui não é o produto em si, mas o mercado.
    Mas se consideramos moda como um todo, não acho errado ver moda como uma forma de expressão individual. O trabalho dos estilistas é criar a partir de diversas referências, e nós compramos por acreditar que isso expressa quem somos. E isso vai até os desfiles, que são também um trabalho de arte.
    Resumindo, acho que dá pra fazer uma breve comparação com literatura: não se deve confundir a obra do escritor com o mercado editorial.

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  3. Sou da velha opinião de que moda e arte são formas de expressar a individualidade.
    Moda não é arte (salvo o trabalho de estilistas, como bem falou o comentário acima) e Arte não é moda.
    Acredito, como você, quem ambos fazem parte de algo maior.
    Bjs

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  4. Uau! Que ótimo ver tanta gente tomando parte no assunto!!!
    A respeito do comentário do "Anônimo", justamente um dos pontos delicados dessa discussão é delimitar o que é arte??? - Eu sugiro o livro do J. Coli 'O que é arte' - e discordo de você quando diz que arte é simplesmente expressão. Fosse assim, qualquer enunciado frasal seria uma obra de arte.

    Bj

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  5. Como bem sabemos, as escolas literárias pré e pós (principalmente pós) Renascentismo foram denominadas com os nomes que conhecemos atualmente por historiadores. Logo podemos estimular outro argumento para defender a ideia de que Moda não é Arte. Yves Saint Laurent, cuja Arte era sua vida, utilizou de muitas obras de grandes nomes como Mondrian, Bach, Picasso entre outros em suas coleções, porém suas criações não deixaram de ser vestimentas para se tornar arte.
    A moda não se insere tão facilmente no contexto de arte (em nenhuma de suas interpretações, ora o termo moda não é apenas designado ao vestuário), já arte pode ser contextualizada em criações de moda como em recente desfile, pois se pararmos para pensar, a matéria prima da moda é algo mais concreto em relação a criações de arte, onde sua principal matéria prima vai muito além da criatividade e imaginação, vai a alma e o sentimento.

    Ótimo tópico Augusto, brilhante como sempre!

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  6. muito bom o topico, essa discução da pano pra manga heheh, e discutir via internet nem sempre é a melhor solução, mas tudo bem.

    disso tudo só ficou confuso, pra mim, a relação arte-mercado, ou seja, arte da qual voces julgam como A, não pode ser mercadologica? então damien hirst e o proprio vick muniz, não são artista, e simplismente vendem um produto?

    isso ficou um pouco confuso em minha cabeça.

    teorizar arte é um fundamento essencial, mas pouco democratico ou não?

    obg abraços.

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