domingo, 27 de fevereiro de 2011

Entrevista: Professores da Univ Técnica de Lisboa falam sobre processo criativo e moda brasileira

 

Por ocasião do 6º Colóquio de Moda, realizado na Universidade Anhembi Morumbi, em 2010 e a convite da Escola de Artes, Ciências e Humanidades – USP, os professores Mario Matos Ribeiro e Inês Simões, docentes da Universidade Técnica de Lisboa aplicaram aos alunos da EACH – USP workshops em que abordaram de maneira diferenciada o processo criativo e a concepção de novos modelos através abstrações e desconstrução. Nesta entrevista os dois falam sobre processo criativo, moda brasileira e dão conselhos a estudantes de moda e futuros criadores.

Mario Matos Ribeiro

Professor Mario Matos Ribeiro

Designer de moda formado pela primeira escola de design de moda de Lisboa. Trabalhou por dois anos com a estilista Ana Salazar, uma das mais bem sucedidas criadoras de moda portuguesa e integrante do line up do São Paulo Fashion Week. Mario abriu uma marca própria que durou até os anos 1990. Foi um dos fundadores da Fashion Week de Lisboa e presentemente leciona na Universidade Técnica de Lisboa.

Professora Inês Simões

Formada em pintura, manteve uma marca, segundo ela “muito pequenina, muito subversivazinha” chamada Pérolas a Porcos. Pensando em se aprimorar na construção do vestuário, foi sozinha a Nova York para estudar modelagem e trabalhou por lá. Posteriormente, retorna a Lisboa, vindo a integrar o corpo docente da Universidade Técnica de Lisboa.

Alexander McQueen

Augusto Paz - É a 1ª vez no Brasil? No tempo em que estiveram aqui, como observaram a moda brasileira?

Mario – Bom, já não é a primeira vez... talvez seja a sexta ou sétima vez que venho ao Brasil, embora das outras vezes eu tenha sempre ficado em praias, passando férias. A maneira de vestir dos brasileiros é muito diferente da nossa, é outra cultura. É uma cultura com sol, com cores, com referências diferentes, não é? Usam muitas estampas. É muito alegre.

Inês – Eu estou aqui pela primeira vez e não sei... não tenho tanto essa percepção de como se vestem os brasileiros. Estou aqui a olhar para tantos meninos e são iguais aos nossos, de fato. Acho que há já uma globalização, independentemente da identidade de cada país. Não sei se apostaria mais já numa globalização do visual.

AP - Quais os erros mais cometidos por novos criadores de moda? Como evitá-los?

Mario – Normalmente, eu acho que o grande erro é que muitos estilistas desenham para si próprios. Não têm um target muito definido de quem é a pessoa que exatamente vai comprar a sua roupa. Outro erro é a vestibilidade das peças. Às vezes as peças quase têm que vir com um manual de instrução. A pessoa tem que se torcer para conseguir meter os braços, torcer para conseguir meter a cabeça, mas são esses os principais erros. E é universal, é global.

Inês – Eu não sei se quero adiantar mais alguma coisa além daquilo que o Mario já disse.

Gareth Pugh

AP - Como os jovens criadores devem proceder para evitar repetições em seus trabalhos?

Mario – Eu acho que, sobretudo, é importante obter informação. Tem que ter muita informação. Tem que ficar sabendo o que se passa no mundo inteiro, não é? Sobretudo no seu universo mais próximo. Agora, a repetição é muito discutível. Há tendências que são globais e que a gente, por muito que queira ou não queira, aproxima-se sempre um pouco. Eu diria que hoje em dia o design de moda não é mais do que revisitar o passado com uma chave nova com a tecnologia, com novas matérias, misturando novas disciplinas etc. Não é mais do que isso. É uma nova maneira de ver a roupa que já existe, no fundo.

Inês – A repetição deles mesmos, por um lado é positiva, porque é isso que vai lhes dar identidade, autoria. Por outro lado, é também uma conseqüência do ritmo alucinante que somos obrigados a lançar novas coleções com o preconcebido de que tem de sempre ser novidade. Isso, por um lado é moda. É sinônimo de mudança. Mudança essa que, se calhar, não ocorre à velocidade que tem que sair das estações. Se começarmos por ter duas temporadas ao ano, já vamos ter várias coleções por ano e eu não sei se conseguimos dar resposta a isso. Portanto, o que acontece é que durante alguns anos há pequenas alterações. Não são alterações globais, no estilo, na silhueta, na forma, sei lá em que mais. Portanto, não haveria muito problema. Agora, se, de fato, um novo autor se repete sem trazer alguma novidade, daí calha de esse autor não ter muito interesse, não é? Porque se esgotou a ele próprio. Acho eu.

Julia Krantz

AP - Como a moda brasileira é vista em Portugal?

Mario – Eu acho que a moda brasileira, a que a gente dá atenção em Portugal, é a moda brasileira de autores. Dos grandes autores brasileiros como Glória Coelho, Reinaldo Lourenço e outros de que não me lembro exatamente o nome. Mas é vista com interesse, vista como autoral e com características muito próprias e muito fiéis ao autor de determinado país. Digamos que não é muito conhecida porque temos o problema da defasagem das estações. Eu acho que os grandes autores brasileiros estão começando a entrar na Europa, talvez mais facilmente nos Estados Unidos e no Japão. Você, por exemplo, tem o Reinaldo [Lourenço] e a Glória [Coelho] que vendem bastante para o Japão e para os Estados Unidos. Em Portugal, digamos que, como as estações estão muito defasadas, é um pouquinho mais difícil, mas é tudo um trabalho que estão começando.

Inês – Por outro lado, também temos a informação de que designers brasileiros já trabalharam em grandes casas. E isso nos obriga a pensar que eles, de fato, são bons. Estando uns a trabalhar na Inglaterra, outros nos Estados Unidos, portanto, temos realmente muito respeito pela moda brasileira. Aquilo que depois nós podemos consumir até agora é mais na linha das Melissas, mais no nível dos trajes de banho, que aí há aquela concepção de que os trajes de banho, biquínis etc são produtos quase exclusivamente brasileiros e, portanto, temos muito respeito. Agora, não podem é vocês se esquecerem que nós, Portugal, somos um país muito pequeno, que ainda não tem o acesso, propriamente, à moda que França, Inglaterra, Itália, Estados Unidos e Japão têm. Chegam-nos algumas coisas pequeninas...

Mario – Eu queria acrescentar uma coisa. Que, por outro lado, a associação dos estilistas brasileiros [ABEST] e a associação têxtil [ABIT] estão fazendo um grande trabalho na divulgação dos estilistas brasileiros na Europa. Fazem grandes eventos, como um muito grande em Londres, há dois anos, creio eu e servem para consolidar essa imagem e identidade fortes que tem o Brasil. Todo mundo já percebeu que o Brasil não é só futebol e samba, não é? Tem muito mais cultura, tem muito mais riqueza cultural. E é isso que, graças a Deus, essas instituições estão conseguindo fazer.

Sarah Schofield

AP - Qual conselho dão àqueles que têm planos de começar uma faculdade de moda e trabalhar em criação?

Mario – Trabalho, trabalho, trabalho, trabalho, muito trabalho!!! Muita informação, muita dedicação, muita seriedade e muita atenção, sobretudo. Nós sabemos que os designers têm que sentir o que está a sua volta, portanto, são uma espécie de catalisador. São os aspiradores que absorvem toda a informação que há a sua volta.

Inês – É isso! [risos]

AP - Qual o maior pecado que pode cometer um criador de moda?

Mario – A primeira coleção mal estruturada.

Inês – Não faço ideia! [risos]

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