domingo, 13 de dezembro de 2009

A Moda e a Guerra

As duas Grandes Guerras certamente configuraram importantes câmbios socioeconômicos no cenário mundial. Houve a ascensão dos Estados Unidos como grande potência e o desenvolvimento de novas tecnologias. Todavia, é quase sempre ignorado o efeito que os dois grandes conflitos surtiram na indumentária feminina.


No século XIX, as nobres e burguesas vestiam-se com pompa. Usavam vestidos feitos sob medida, que muitas vezes levavam mais de cinquenta metros de tecido. Sem mencionar os riquíssimos bordados feitos à mão e a delicada aplicação de pedras preciosas. As mulheres ainda usavam os torturantes espartilhos e a vida era opulenta e próspera.

Nos anos 1910 surge a Belle–Époque. As cinturas continuam finas, mas os quadris se avolumam com anquinhas e volumosas anáguas. É resgatado o ideário Greco-romano e começa-se a fazer uso de tecidos leves, rendas e drapés. Os salões de baile estavam sempre lotados e a última moda eram as soirées. No final da década, entretanto, estoura a Primeira Guerra Mundial e as atenções - e recursos – do mundo voltaram-se para o conflito. As consequência disso foram devastadores para o mundo da moda. Estilistas tais quais Jean Patou e Paul Poiret (aquele que livrou as mulheres dos torturantes espartilhos) foram convocados à batalha e tiveram de fechar seus ateliers. Em consequência disso, surgem no mainstream fashion nomes femininos como Madeleine Vionnet e Coco Chanel. A situação sociopolítica não permitia mais extravagâncias. Os coloridos vestidos de tecidos exóticos tiveram de ser substituídos por peças mais práticas, simples e sérias. Vide a criação dos tailleurs de jersey de Chanel. Em vez dos delicados vestidos de renda e das botinhas da Belle Époque, a mulher da Primeira Guerra Mundial teve de se contentar com vestidos de flanela e algodão, mais baratos e duráveis, e sapatos baixos. Além disso, a mulher teve de assumir os postos de trabalho deixados pelo contingente masculino, que se encontrava agora em campo de batalha. O resultado: A moda quase desapareceu. Optava-se por peças essencialmente práticas ou uniformes.

Com o fim da Primeira Guerra, os artistas que retornaram dos campos de batalha encontraram uma Europa completamente transformada, física e ideologicamente. As mulheres, agora parte da força trabalhadora, recusavam-se a relegar-se à posição de objetos reprodutores e surgiu a consciência de que a vida é frágil e curta. Surge então o espírito jovial, influenciado pela filosofia Carpe Diem que permeia toda a década de 1920. Começam os “Anos Loucos”. Entra em voga o visual à la garçonne. Surgem a flappers, ou melindrosas, mulheres ousadas sempre vestidas de maneira ousada e munidas de cigarros e estolas. Uma transgressão sem precedentes. Nos anos 1930 a mulher retoma seu glamour e a indústria têxtil, seu fôlego. É então que estoura a Segunda Guerra. A dominação alemã quase aniquilou o mercado de tecidos europeu, uma vez que o fürher impusera cotas de importação de tecidos aos países do Velho Continente e isso refletiu na maneira de vestir feminina. A mulher voltou, desta vez definitivamente, ao mercado de trabalho e para ir às fábricas de bicicleta fez uso de calças compridas. Na falta de meias-finas, faziam riscos com carvão nas panturrilhas a fim de simular a costura da meia-calça. Fez-se uso de tecidos alternativos, como a viscose e o raiom. O corte tornou-se mais reto e popularizou-se o estilo militar. Os saltos se alargaram e a indumentária, de maneira geral, escureceu-se. A mudança mais importante na moda no período da Segunda Guerra Mundial não ocorreu nos croquis, nem nas paletas de cores, mas sim na logística. Surge o prêt-à-porter. A necessidade fez com que as mulheres preferissem roupas avulsas que podiam ser combinadas entre si, para compor looks diferentes. Com o final da guerra, a silhueta feminizou-se novamente e as cores tornaram-se mais alegres, abrindo espaço para o que um dia o mundo viria a conhecer por New Look.

Mais do que mudanças na indumentária, as Grandes Guerras transformaram o pensamento feminino. A mulher viu que poderia exercer um papel mais preponderante na sociedade. O uso de calças, por exemplo suscita a ideia de que a mulher é tão competente quanto o homem, esse foi um fashion statement importantíssimo, afinal, ao fazer uso da peça a mulher, mesmo que inconscientemente gritou ao mundo que era tão competente quanto o homem e que poderia sim, assumir o papel de provedora do sustento familiar. Foi o começo de uma revolução que dura até hoje.

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Fotos by: Thursday's Antiques, Flickr, Refinery29, Vogue - 1939

Um comentário:

  1. Muito interessante saber como acontecimentos como a guerra tem grande repercussão na moda.

    Obrigada!

    Julie Maria

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